A mais alta Corte do país enfrenta um momento de severa turbulência institucional. A decisão do presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Luiz Edson Fachin, de levantar o segredo de justiça dos autos do chamado Caso Master deflagrou uma intensa troca de acusações formais entre integrantes do tribunal. O confronto expõe divergências profundas quanto aos ritos processuais e à condução das investigações que envolvem o sistema financeiro e a Polícia Federal.

Acusações de omissão e blindagem política

O ponto central do mais recente embate envolve os ministros Alexandre de Moraes e André Mendonça. Em manifestações enviadas à Presidência da Corte, Moraes sustentou que seu colega teria realizado uma liberação parcial e direcionada de documentos, omitindo cerca de 180 peças relevantes do processo. Segundo o magistrado, a conduta visaria favorecer determinados grupos políticos e comprometer a imparcialidade do julgamento.

Moraes solicitou que o Plenário analise de forma unificada as petições que apuram as menções ao seu nome nas conversas do empresário Daniel Vorcaro — controlador do Banco Master — e os pedidos de investigação sobre a conduta de Mendonça. A alegação é de que o fracionamento das análises contraria o entendimento da própria Presidência e pode gerar decisões conflitantes.

A resposta de Mendonça e a intervenção da PGR

Em contrapartida, o ministro André Mendonça rejeitou veementemente as acusações de ocultação de provas. Em despacho oficial, o relator explicou que divergências na contagem de arquivos no sistema do STF ocorrem por motivos técnicos, como o remanejamento interno de petições e despachos administrativos, assegurando que todos os elementos disponíveis foram tornados públicos.

A controvérsia ganhou novos contornos após a Procuradoria-Geral da República (PGR) alertar que o acervo disponibilizado não continha a totalidade das peças da Operação Compliance Zero. Diante da provocação do órgão ministerial, o ministro Edson Fachin fixou um prazo rigoroso de 24 horas para que a totalidade dos procedimentos seja gravada em meio digital e distribuída aos gabinetes de todos os ministros.

Origem da crise e próximos passos

A crise teve início com o vazamento de registros telefônicos de Daniel Vorcaro, apreendidos no âmbito de operações policiais que investigam fraudes bancárias e irregularidades no consignado de aposentados. O episódio desencadeou uma reação em cadeia, que incluiu pedidos de investigação por abuso de autoridade, afastamento temporário da cúpula da Polícia Federal posteriormente revogado, e a intervenção direta da Presidência do STF.

Diante do impasse, o presidente da Corte avocou a gestão das petições e agendou uma sessão extraordinária do Plenário para o dia 15 de setembro. Caberá ao colegiado de magistrados delinear os rumos das apurações e buscar pacificar o ambiente interno do tribunal.