No centro de um emaranhado de operações financeiras sob investigação da Polícia Federal, o empresário Daniel Vorcaro, comandante do Banco Master, manteve como máxima prioridade institucional a liberação de quantias milionárias para dois lados opostos do espectro político nacional. Provas colhidas no âmbito da Operação Compliance Zero mostram que o banqueiro destinou aproximadamente R$ 260 milhões a projetos associados ao senador Flávio Bolsonaro e ao escritório de advocacia da esposa do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Alexandre de Moraes.
A cinebiografia e a exigência de pontualidade
A primeira grande frente financeira envolveu a produção cinematográfica intitulada “Darkhorse”, um longa-metragem biográfico sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro. Intermediado pelo senador Flávio Bolsonaro, o contrato de patrocínio foi fixado em valor equivalente a R$ 131 milhões na cotação da época, dos quais ao menos R$ 61 milhões foram efetivamente liquidados.
Registros telefônicos apontam que Vorcaro exigia urgência absoluta na transferência dos recursos. Em janeiro de 2025, ao cobrar explicações sobre atrasos no cronograma de pagamentos a seu cunhado, Fabiano Zettel, o banqueiro enfatizou que aquele aporte era o mais relevante da instituição e que falhas não seriam toleradas. As revelações serviram de base para que a Procuradoria-Geral da República (PGR) solicitasse a abertura de inquérito contra Vorcaro, Flávio e Eduardo Bolsonaro — pedido posteriormente acolhido pelo ministro André Mendonça.
Contrato com o escritório de advocacia e bastidores no STF
Em paralelo, o Banco Master alocou R$ 134 milhões para um contrato de prestação de serviços com o escritório da advogada Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro Alexandre de Moraes. Desse montante, ao menos R$ 80 milhões já teriam sido desembolsados ao longo de uma parceria prevista para durar três anos.
Conforme as apurações da Polícia Federal, a aproximação entre o banqueiro e o ambiente do magistrado contou com a intermediação do ex-ministro Fábio Faria. Em março de 2025, após cobranças por pendências financeiras, Vorcaro manifestou forte contrariedade com sua equipe e determinou a quitação imediata das faturas, classificando o vínculo com o escritório como o compromisso contratual mais expressivo da instituição. A rotina de priorização dos repasses permaneceu visível até meados de julho do mesmo ano em diálogos com subordinados.
Repercussão institucional e desdobramentos judiciais
A simultaneidade dos repasses para atores de forte antagonismo colocou o Banco Master sob intenso escrutínio. De um lado, a defesa de Flávio Bolsonaro argumenta que as negociações envolveram recursos estritamente privados. Por outro lado, o ministro Alexandre de Moraes afirmou publicamente jamais ter se encontrado com o banqueiro.
O caso se desdobra em um momento crítico para a Suprema Corte. Um julgamento agendado para a próxima terça-feira (15/9) definirá os rumos das apurações e a eventual abertura de inquérito para examinar os contornos e o alcance das movimentações mantidas pelo banqueiro no tribunal.




