A divulgação de dados obtidos pela Polícia Federal trouxe à superfície a dinâmica de contato entre o senador Flávio Bolsonaro e o empresário Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master. Os diálogos, cuja publicidade foi autorizada pelo Supremo Tribunal Federal (STF) sob relatoria do ministro André Mendonça, expõem cobranças diretas para o envio de recursos destinados à produção cinematográfica "Dark Horse", obra planejada sobre a vida do ex-presidente Jair Bolsonaro.
A estrutura financeira sob suspeita
As apurações das autoridades debruçam-se sobre indícios de lavagem de dinheiro, evasão de divisas e corrupção. O modelo de custeio identificado no aparelho telefônico do executivo previa um investimento total de US$ 24 milhões (equivalente a cerca de R$ 134 milhões à época), fracionado em 14 parcelas. A perícia financeira rastreou a remessa de mais de US$ 12,3 milhões a partir da offshore Entre Investimentos, sediada nas Bahamas, com destino ao fundo norte-americano Havengate Development Fund LP.
Um dos pontos centrais apontados pelos investigadores diz respeito às projeções de arrecadação do filme, classificadas como fora dos padrões do mercado audiovisual brasileiro. O plano previa receitas entre US$ 45 milhões e US$ 100 milhões. Para efeito de comparação, o maior sucesso de bilheteria do cinema nacional arrecadou o equivalente a aproximadamente US$ 30 milhões. Além disso, o fundo destinatário no exterior possui vínculos com o corretor Altierres Santana e o advogado Paulo Sergio Camin Calixto, responsável pela defesa de Eduardo Bolsonaro.
Cronologia das conversas e apelo final
Os registros indicam que o diálogo inicial ocorreu no final de 2024, intermediado pelo marqueteiro Thiago Miranda. O deputado federal Mário Frias foi citado como idealizador do projeto, enquanto Eduardo Bolsonaro apareceu em momentos subsequentes com orientações relativas à gestão das verbas em território americano.
Ao longo de 2025, com o início das gravações, o tom dos recados tornou-se mais cobrador. Em registros em áudio e texto, o senador manifestou preocupação com atrasos que poderiam gerar inadimplência perante profissionais de Hollywood, incluindo o ator Jim Caviezel e o diretor Cyrus Nowrasteh. Diante do risco de paralisação da produção, reuniões e jantares de alinhamento foram sugeridos entre as partes.
A comunicação direta estendeu-se até as vésperas da deflagração da Operação Compliance Zero, em novembro de 2025. Na noite anterior à sua prisão no aeroporto, quando tentava embarcar em um jato privativo para o exterior, Vorcaro recebeu uma declaração de apoio incondicional enviada pelo parlamentar, encerrando o histórico de mensagens analisado pela investigação.




