Um volumoso acervo documental entregue às autoridades federais começou a desvendar a complexa arquitetura financeira sob investigação nas instâncias superiores. No âmbito das apurações que apuram supostos repasses ilícitos ao senador Jaques Wagner, o advogado Daniel Monteiro — apontado como um dos formuladores da estrutura societária vinculada ao banqueiro Daniel Vorcaro — apresentou à Polícia Federal e ao gabinete do ministro André Mendonça um mapeamento detalhado composto por mais de 500 contratos e aditivos contratuais.
Uso de papéis sem liquidez como moeda de troca contábil
A estratégia defensiva de Monteiro, que busca demonstrar atuação puramente técnica na elaboração de peças jurídicas, acabou por oferecer aos investigadores um roteiro minucioso de como bilhões de reais em patrimônio real orbitavam entre instituições financeiras, fundos de investimento e entidades no exterior. Segundo os registros apresentados, o pilar das transações consistia no emprego de direitos creditórios de dificílima liquidação, vinculados à Construtora Industrial Brasileira (CIB) — empresa que busca na Justiça, desde a década de 1960, reparações da União decorrentes da construção de uma rodovia na Região Norte.
Ainda que valorados contabilmente em R$ 35 bilhões, esses títulos funcionavam como uma moeda figurativa. Através de fatiamentos sucessivos, os papéis sem lastro de mercado eram trocados por ativos com liquidez efetiva, como ações negociadas na B3 e Cédulas de Crédito Bancário (CCBs) oriundas de empréstimos concedidos pelo Banco Master.
Triangulação de fundos e remessas para o exterior
O material entregue expõe casos concretos dessa dinâmica. Em dezembro de 2024, uma transação envolveu o fundo Montenegro e o FIDC Esperanza: o primeiro cedeu R$ 800 milhões procedentes da alienação de participações em companhias como Light e Veste, recebendo em contrapartida unicamente os papéis da CIB. Na prática, o fundo Esperanza utilizou esses títulos para absorver mais de R$ 6 bilhões em ativos legítimos integrados ao ecossistema do grupo.
A operação permitia capitalizar estruturas no exterior sem a necessidade de aportes em moeda corrente. Em determinado negócio, o próprio Daniel Vorcaro absorveu R$ 1,89 bilhão em títulos da CIB ao repassar ao FIDC Esperanza participações de sua offshore sediada nas Ilhas Cayman — a Master Holding Cayman (posteriormente renomeada Titan Capital), entidade recentemente encerrada por determinação da Justiça caribenha.
Circuito de autopagamento e camadas operacionais
Entre os meses de janeiro e abril de 2025, a engrenagem ganhou nova escala com a participação do fundo Hans 95, citado nos desdobramentos da Operação Carbono Oculto. O veículo adquiriu uma carteira de 15 fundos nacionais integrados ao grupo utilizando novamente os títulos contenciosos da CIB como forma de quitação. Em seguida, o Hans 95 repassou esse bloco de fundos para a offshore caribenha de Vorcaro em troca de participações acionárias na própria entidade no exterior.
Essas ações foram posteriormente negociadas com o FIDC Esperanza pelo montante de R$ 1,55 bilhão, pagos mais uma vez por meio dos papéis da construtora. Ao término do circuito contratual, o banqueiro tornava-se titular efetivo das empresas e fundos no Brasil por meio da offshore, enquanto os títulos sem liquidez ficavam retidos na base dos fundos locais. O dossiê mapeia o envolvimento de mais de 60 veículos de investimento — entre FIDCs, FIPs, FIAs e multimercados — estruturados sob esse modelo.




