Uma denúncia envolvendo a alocação de recursos públicos no Congresso Nacional colocou sob holofotes a gestão do deputado federal e candidato ao Senado Júlio César (PSD-PI). O parlamentar mantém em seu quadro de assessores a psicóloga Kennya Martins, contratada como secretária parlamentar, porém sem que haja registros claros ou explicações detalhadas sobre suas atribuições legislativas em Brasília.

Desde a sua nomeação, a profissional já acumulou repasses que somam R$ 164,7 mil em remunerações pagas pelo Poder Legislativo federal. Inicialmente contratada com vencimentos de R$ 5,4 mil, seu subsídio mensal atual atinge R$ 7,3 mil. No entanto, apurações revelam que a rotina da servidora está distante dos corredores da capital federal.

Conflito de agendas e atuação clínica em Teresina

Enquanto figura na folha de pagamento da Câmara dos Deputados, Kennya Martins mantém uma intensa atividade profissional na capital piauiense. Ela é proprietária e profissional atuante no Instituto Mundo de Dentro, centro especializado localizado em Teresina onde realiza atendimentos presenciais voltados ao público infantil e infantojuvenil. Na clínica privada, procedimentos como avaliações neurológicas chegam a custar R$ 4,2 mil por paciente.

Além de comandar o empreendimento privado e ocupar a vaga parlamentar, a psicóloga também integra o corpo de profissionais do Instituto Federal do Piauí (IFPI), evidenciando uma multiplicidade de vínculos que levanta questionamentos sobre a viabilidade de cumprimento da jornada exigida pela assessoria parlamentar.

Incapaz de detalhar as próprias funções

Questionada formalmente sobre as atividades que desempenha na estrutura do mandato de Júlio César, a assessora demonstrou hesitação e não soube descrever suas rotinas de trabalho em Brasília. Em um primeiro momento, alegou que sua atuação ocorreria de forma descentralizada em Teresina e em momentos pontuais na capital federal, mas se recusou a pormenorizar quais projetos ou demandas operacionais estão sob sua responsabilidade.

A falta de clareza estende-se ao próprio contratante. O deputado Júlio César admitiu desconhecer as atribuições exatas de Kennya em seu gabinete, transferindo a responsabilidade do acompanhamento para um subordinado de sua equipe. O parlamentar prometeu prestar esclarecimentos posteriores sobre o caso, contudo não retornou os contatos efetuados pela reportagem.

Impacto político e cobrança por transparência

O episódio ganha contornos ainda mais sensíveis diante do cenário político atual, visto que Júlio César busca projetar sua candidatura ao Senado Federal. A existência de nomeações sem comprovação clara de prestação de serviços reacende o debate sobre os mecanismos de controle interno e a transparência na utilização das verbas de gabinete do Congresso Nacional.