A paisagem da Lagoa da Pampulha, em Belo Horizonte, quase acolheu uma das estruturas mais ousadas do modernismo brasileiro: uma arrojada edificação circular de concreto e vidro branco, suspensa sobre a água e carinhosamente apelidada de "disco voador". Idealizado em 2004 por Oscar Niemeyer, o anexo tinha como missão resolver um dilema estrutural que se arrasta por décadas: o prédio do atual Museu de Arte da Pampulha (MAP) jamais foi pensado para abrigar acervos de artes visuais.

Um cassino transformado em museu: o encanto que virou problema

Concebido no início dos anos 1940 para ser o suntuoso Cassino da Pampulha, o edifício teve sua vocação interrompida em 1946 com a proibição dos jogos de azar no Brasil. Convertido em museu em 1957, o espaço revelou desafios complexos de conservação. As icônicas fachadas envidraçadas — celebradas internacionalmente pelo apuro estético — tornaram-se vilãs ao permitir a entrada direta de radiação ultravioleta e calor, fatores altamente prejudiciais à integridade das obras de arte.

Além da incidência solar, a reserva técnica destinada à guarda do acervo não exposto acabou improvisada no subsolo, sem as especificações técnicas de temperatura e umidade exigidas pela museologia moderna.

A utopia do "disco voador" e as reconstituições virtuais

Para contornar o entrave, Niemeyer propôs duas alternativas de ampliação. A primeira previa a estrutura flutuante sobre a lagoa, descartada rapidamente por infringir leis ambientais e diretrizes de conservação do patrimônio tombado. A segunda proposta, apresentada em 2008, consistia em um volume horizontal no terreno defronte ao museu; embora aprovada pelos órgãos de proteção, tampouco foi executada.

Ambas as ideias replicavam, ironicamente, características que já tensionavam o prédio original, como o uso ostensivo de vidro e depósitos subterrâneos. Recentemente, estudos de reconstituição digital desenvolvidos pelo arquiteto Marcelo Palhares Santiago, da plataforma ARQBH, trouxeram à tona como ficaria a maquete virtual do projeto flutuante, fundamentando-se rigorosamente nas plantas e nos memoriais descritivos originais do mestre da arquitetura.

A solução definitiva: novo núcleo e restauração em vista

Mais de duas décadas após o projeto do anexo, a Prefeitura de Belo Horizonte (PBH) executa uma intervenção concreta em outro ponto da orla. O futuro MAP – Núcleo de Pesquisa e Informação ocupará o imóvel da antiga estação de bombeamento de água da Pampulha, marco arquitetônico dos anos 1940 situado na Avenida Otacílio Negrão de Lima, em área reconhecida pela Unesco como Patrimônio Cultural da Humanidade.

A nova estrutura abrigará a reserva técnica climatizada, o acervo bibliográfico e o centro de documentação da instituição. A conclusão das obras do núcleo está prevista para o final de 2026. Com a posterior transferência das obras — processo planejado para durar seis meses —, o edifício principal do cassino ficará totalmente desocupado para passar por uma restauração completa, cujo processo licitatório será aberto ainda este ano.

Linha do Tempo: A evolução do MAP

  • Década de 1940: Construção do Cassino da Pampulha e da estação de bombeamento de água no entorno.
  • 1946: Proibição dos jogos no país encerra as atividades do cassino.
  • 1957: Adaptação e inauguração oficial do Museu de Arte da Pampulha (MAP).
  • 2004: Niemeyer apresenta o projeto do anexo circular flutuante ("disco voador").
  • 2008: Elaboração da segunda proposta de anexo, em formato baixo e horizontal.
  • Dezembro de 2026: Previsão de entrega das obras do MAP – Núcleo para recebimento do acervo.