Em depoimento sigiloso prestado à Polícia Federal no âmbito das investigações sobre a queda do avião em Vinhedo (SP), que resultou em 62 mortes em agosto de 2024, um ex-piloto da Voepass revelou a existência de uma rigorosa cadeia de pressão interna para ignorar falhas mecânicas. Segundo o relato de Luiz Almeida, a alta cúpula da empresa solicitava com frequência aos comandantes que não formalizassem avarias no livro de bordo, evitando a paralisação de aeronaves para manutenção.
Cadeia de pressão para evitar aeronaves em solo
De acordo com o testemunho, a exigência para omitir problemas no Technical LogBook (TLB) — documento obrigatório de registro técnico — derivava de cobranças severas efetuadas pela Latam. À época, a Voepass dependia financeiramente da parceria comercial, sendo responsável por operar voos regionais comercializados pela parceira maior.
O ex-piloto esclareceu que a retenção de um avião para reparos impossibilitava a realização de rotas programadas, gerando prejuízo financeiro para a Latam. Em caso de atrasos ou cancelamentos de conexões, a empresa contratante era obrigada a arcar com custos de hospedagem, transporte e alimentação para os passageiros afetados.
Exemplos de graves omissões operacionais
No depoimento que compôs o relatório conclusivo do inquérito, Almeida citou situações de alto risco toleradas pela companhia. Entre os exemplos relatados às autoridades, destacam-se aeronaves que voavam com pneus carecas e operações com o sistema de aquecimento do tubo pitot inoperante — componente essencial para a medição de velocidade e dados de voo.
A instrução informal consistia em pedir aos aviadores que avaliassem maneiras de concluir a rota sem fazer o registro oficial no TLB, pois a anotação formal impediria legalmente a descolagem da aeronave antes da checagem mecânica.
Nomes indiciados e dependência econômica
O piloto apontou nominalmente dois executivos como os principais transmissores dessas exigências aos comandantes: Raphael Limongi de Figueiredo, chefe do Centro de Controle Operacional, e Rafael Gimenez Rodrigues, chefe de pilotos. Ambos figuram entre os 16 indiciados pela Polícia Federal ao término da investigação.
A submissão às demandas intensificou-se após a assinatura de um novo contrato firmado em junho de 2024, dois meses antes da tragédia. O acordo expandia o controle da Latam sobre processos operacionais e administrativos da Voepass, que projetava faturar R$ 6,5 bilhões ao longo de nove anos com a parceria. Na ocasião do acidente, 93% das receitas da empresa menor dependiam diretamente dessa cooperação comercial.
Procurada para se manifestar sobre as declarações prestadas à Polícia Federal, a Latam optou por não comentar o caso.




