Um forte terremoto de 7,5 graus na escala Richter atingiu a península de Noto, no Japão, no dia 1º de janeiro de 2024, resultando na morte de mais de 700 pessoas. O desastre, além de causar destruição, desencadeou uma onda de desinformação, com imagens geradas por inteligência artificial e sites fraudulentos que tentavam enganar doadores.

Nos dias que se seguiram à tragédia, circularam alegações infundadas de que pessoas estariam presas sob os escombros, o que desviou a atenção das operações de resgate. Teorias da conspiração, incluindo a sugestão de que o terremoto foi causado artificialmente como um ataque da Coreia do Norte, se espalharam rapidamente nas redes sociais. Este panorama alarmante de desinformação em desastres naturais não é novo no Japão; eventos anteriores, como o terremoto em Kumamoto, também geraram informações falsas.

Este cenário caótico levou uma coalizão de veículos de mídia, anunciantes e empresas de tecnologia japonesas a unirem esforços para desenvolver uma solução robusta para combater a desinformação online. A resposta foi o lançamento do padrão da web denominado Perfil do Autor (OP). Esse mecanismo visa ajudar os usuários a verificar a origem das informações, utilizando tecnologia de assinatura digital criptográfica que garante a autenticidade dos sites.

O OP não se destina a avaliar a veracidade do conteúdo em si, mas sim a validar a identidade da fonte que publicou as informações. Cada site que utiliza esse padrão terá um cartão de identificação que confirma quem é o autor do conteúdo, se a entidade foi verificada por organizações competentes e quais são as suas diretrizes editoriais.

Embora a interface do usuário ainda esteja em desenvolvimento, uma nova extensão de navegador já foi lançada. Essa ferramenta exibe informações verificáveis em uma barra lateral quando um usuário acessa um site que utiliza o OP. O objetivo principal é assegurar que a informação compartilhada realmente provenha da fonte alegada, sem julgar a veracidade de cada notícia.

O conceito do OP surgiu em 2021, em um projeto da Dentsu, uma das maiores agências de publicidade do Japão. Com a crescente problemática de anúncios digitais fraudulentos e desinformação, a Dentsu buscou um método eficaz para autenticar informações durante a transição de anúncios no ecossistema digital. Para criar as especificações do OP, a Dentsu se uniu ao professor Jun Murai, reconhecido como um dos pioneiros da internet no Japão, que contribuiu para o desenvolvimento de padrões web relacionados ao idioma japonês.

A adesão a essa iniciativa também contou com o apoio de grandes publicações, como o Yomiuri Shimbun, que se tornou um dos membros fundadores da Parceria Colaborativa para Inovação do Perfil do Originador (OP-CIP). A necessidade de autenticar páginas da web e proteger a credibilidade das marcas de notícias se tornou evidente, especialmente em um momento em que a tecnologia de IA facilitou a falsificação de reportagens legítimas.

Com o terremoto de Noto, o projeto recebeu um impulso significativo, levando o governo japonês a reconhecer a importância da ferramenta de autenticação para comunicações durante crises. A partir desse reconhecimento, o governo começou a financiar a OP-CIP, que agora inclui representantes de administrações locais.

Atualmente, a coalizão da OP-CIP conta com o apoio de diversas organizações, incluindo a NHK, emissora pública do Japão, e aggregadores de notícias como LINE-Yahoo. Apesar das declarações de apoio, apenas algumas dessas entidades implementaram completamente a tecnologia até o momento.

A Dentsu está em processo de integrar o OP em suas campanhas publicitárias, na esperança de reduzir o aumento de fraudes publicitárias e golpes relacionados à inteligência artificial. De acordo com projeções, a OP-CIP almeja ter 50 grandes organizações adotando o padrão até o início de 2027, e planeja expandir sua aplicação para um padrão internacional da web, colaborando com editoras de notícias e empresas de tecnologia ao redor do mundo.

Para avançar nessa direção, o Consórcio World Wide Web (W3C) já formou um grupo de trabalho para explorar as possibilidades de integrar o OP em padrões globais. A primeira ferramenta pública do OP, chamada OP Inspector, foi lançada, permitindo que usuários verifiquem perfis assinados em sites. A extensão, disponível para os navegadores Chrome e Firefox, já está em funcionamento, e a intenção é aprimorá-la para que mais usuários possam acessá-la.