Em um cenário marcado pela pressão estética e pela busca por resultados imediatos, o uso indiscriminado de substâncias para redução de peso ganha contornos alarmantes no Brasil. O drama vivido por Beatriz, de 20 anos, moradora de Atibaia (SP), acende um alerta sobre os riscos físicos e psicológicos provocados pela dependência de medicamentos injetáveis adquiridos fora do circuito médico legal.
Atraída pela promessa do emagrecimento rápido e assombrada por um histórico de compulsão alimentar, a jovem recorreu ao mercado informal para adquirir as chamadas 'canetas emagrecedoras'. Importados ilegalmente do Paraguai e comercializados por meio de redes sociais — sem nota fiscal ou registro na Anvisa —, os produtos eram vendidos por intermediários sem qualquer qualificação na área de saúde. Por quatro doses de um composto similar a medicamentos modernos de controle metabólico, a jovem desembolsou R$ 1 mil, dando início a uma rotina de aplicações sem supervisão.
A ilusão do peso ideal e o ciclo da dependência
Inicialmente, o fármaco cumpriu o papel de inibir o apetite e anular os pensamentos constantes sobre alimentação. Em cerca de oito meses, Beatriz reduziu seu peso de 83 kg para 66 kg. No entanto, a perda de 17 quilos não trouxe o alívio esperado. Em vez disso, deu lugar à dismorfia corporal: mesmo com a mudança drástica, a jovem continuava enxergando uma imagem distorcida no espelho, o que a levou a aumentar arbitrariamente as dosagens por medo de engordar.
O temor da balança transformou a busca pelo corpo magro em uma dependência psicológica severa. Mesmo em momentos de escassez financeira, Beatriz acumulou dívidas e contratou empréstimos para manter o suprimento do produto. Isolada e com receio de procurar ajuda profissional devido ao medo do julgamento, a jovem chegou a utilizar ferramentas de inteligência artificial como canal de desabafo para relatar suas angústias e comportamentos nocivos.
Riscos físicos e a armadilha do efeito sanfona
Tentativas de interrupção do tratamento falharam. Após um período de quatro meses de suspensão incentivado pela família, o retorno dos impulsos alimentares provocou um rápido ganho de peso, levando-a a recair no uso dos injetáveis. Em sua fase mais recente de aplicação, a jovem relatou episódios extremos, como permanecer 24 horas consecutivas sem se alimentar em decorrência dos fortes efeitos colaterais. Nem mesmo o risco de complicações graves, como a pancreatite — diagnosticada em uma amiga que utilizou o mesmo produto —, reduziu o consumo.
Especialistas em saúde mental e neuropsicologia enfatizam que medicamentos injetáveis, embora tenham indicação terapêutica para quadros específicos quando devidamente acompanhados, não alteram comportamentos nem tratam as causas profundas da compulsão. Sem a devida reeducação alimentar e o suporte psicoterapêutico, a interrupção do fármaco tende a disparar recaídas ainda mais severas, aprisionando o paciente em um ciclo de frustração e dependência.




