O Estado de Goiás ganhou destaque na recente divulgação do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) pelo Ministério da Educação (MEC), revelando que o ensino médio da região está entre os melhores do Brasil. Das 20 escolas com os melhores desempenhos, metade está localizada no estado, incluindo cinco em Formosa, a uma hora de Brasília. Contudo, essa boa classificação no Ideb contrasta com os resultados do Enem, onde as notas das instituições são preocupantes.

O Colégio Estadual Doutor José Balduíno de Souza Décio, considerado a terceira melhor escola do Brasil pelo Ideb, ocupa a posição 8.268º no ranking do Enem. Similarmente, o Colégio Estadual de Educação do Campo Arthur Ribeiro de Magalhães Filho, que se destaca como a nona melhor, está classificado em 13.118º no exame. Esses dados levantam questões sobre a qualidade do aprendizado efetivo dos alunos em relação às classificações do Ideb.

O Enem, principal porta de entrada para as universidades, permite que os alunos utilizem suas notas, que podem chegar até 1.000 pontos, para concorrer a vagas em instituições de ensino superior, além de possibilitar o acesso a bolsas em faculdades particulares. No entanto, nenhuma das escolas de Goiás atingiu a média de 600 pontos, com o melhor desempenho sendo do Colégio Estadual da Polícia Militar de Goiás Madre Germana, que alcançou 576 pontos.

A discrepância entre as notas altas no Ideb e os resultados baixos no Enem não é única a Goiás, mas também é observada em outros estados como Alagoas e Ceará. Exemplos de instituições que não enfrentam essa situação incluem a Escola Preparatória de Cadetes do Ar (EPCAR) em Minas Gerais, que obteve a média de 704,26 pontos no Enem, e o Colégio de Aplicação da UFV (Coluni), que, com 728 pontos, foi o melhor entre as escolas públicas.

A professora Catarina de Almeida Santos, do Departamento de Planejamento e Administração da Universidade de Brasília (UnB), enfatiza que um Ideb elevado não necessariamente reflete uma aprendizagem efetiva. Ela ressalta que o conteúdo das provas de português e matemática tende a ser previsível, levando as escolas a desenvolver estratégias que, embora melhorem os índices, não representam um avanço real na educação dos alunos. A prática de direcionar estudantes com desempenho inferior para a Educação de Jovens e Adultos (EJA) é um exemplo disso.

Além disso, a professora aponta que o Enem requer habilidades interpretativas e analíticas que nem sempre são cultivadas nas salas de aula, o que pode explicar a baixa performance das escolas de Goiás nesse exame. “As questões do Enem exigem do aluno uma capacidade de reflexão e compreensão que, muitas vezes, não são trabalhadas no cotidiano escolar”, destaca.

Uma visita a Formosa revelou que muitos estudantes têm prioridades diferentes, buscando ingressar diretamente no mercado de trabalho após concluir a educação básica, o que diminui o foco no Enem. “Aqui, muitos veem o exame como algo distante, priorizando a formação técnica para a entrada no mercado”, comenta uma professora da região.

A situação educacional em Goiás levanta um debate importante sobre a qualidade do ensino e a forma como a educação é percebida. A professora Almeida destaca que um enfoque excessivo no aprendizado utilitarista pode prejudicar a formação integral dos alunos, afirmando que o processo educativo deve oferecer mais do que apenas habilidades profissionais.

O Enem de 2026 será realizado em duas edições, nos dias 8 e 15 de novembro, abrangendo quatro áreas do conhecimento: Ciências da Natureza, Ciências Humanas, Linguagens e Matemática.