Uma apuração sobre o emprego de verbas públicas destinadas à inclusão social por meio do esporte revelou um contraste marcante no interior paulista. O projeto Lutando Pela Vida, voltado ao ensino de jiu-jítsu para crianças na cidade de Pirassununga (SP), alocou R$ 457,8 mil exclusivamente para a aquisição de vestuário esportivo. No entanto, registros fotográficos e relatos de familiares confirmam que os alunos praticam a modalidade sem os devidos kimonos.
Origem dos Recursos e Tramitação Financeira
Financiada com R$ 1 milhão do orçamento do Ministério do Esporte, a iniciativa é fruto de uma emenda parlamentar do deputado federal Mário Frias (PL-SP). Os recursos governamentais foram repassados inicialmente ao Instituto Conhecer Brasil (ICB) — entidade vinculada à produtora do longa-metragem sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro — e, em seguida, transferidos ao projeto social por meio de um termo de fomento.
Relatórios da Controladoria-Geral da União (CGU) identificaram inconsistências graves na execução orçamentária do convênio. Segundo o órgão fiscalizador, o projeto chegou a emitir comprovantes de pagamento ao ICB antes mesmo que o vínculo contratual entre as partes fosse formalizado juridicamente.
Contratações Suspeitas e Conexões Eleitorais
A gestão técnica do projeto está sob a responsabilidade de um instrutor local de artes marciais, contratado por R$ 13,7 mil. Levantamentos indicam que o profissional formalizou seu registro como Microempreendedor Individual (MEI) escassos dias antes de fechar o contrato com a iniciativa social. Em 2022, o mesmo instrutor prestou serviços à campanha eleitoral de Frias e devolveu parte expressiva dos valores recebidos na forma de doação eleitoral.
As irregularidades motivaram uma ostensiva operação da Polícia Federal. Em despacho relativo ao caso, o Supremo Tribunal Federal (STF) ressaltou que diversos prestadores de serviço contratados pelo projeto apresentam cadastros operacionais incompatíveis com as atividades efetivamente faturadas.
Ramificações e Denúncias de Uso de Verba
A investigação também apura a possível conexão entre a rede de favorecidos do projeto e eventos privados de entretenimento promovidos na região. Representantes políticos protocolaram representações no STF solicitando a apuração de vínculos entre os repasses públicos e a realização de festivais de música eletrônica em Pirassununga. Os organizadores das festas, contudo, negam veementemente qualquer financiamento estatal e sustentam que os eventos são mantidos exclusivamente por capital privado.




