Investigação sobre cobranças indevidas no INSS ganha novos desdobramentos
Registros audiovisuais obtidos pela Polícia Federal trouxeram à tona novos detalhes sobre as engrenagens de um esquema bilionário de descontos não autorizados na folha de pagamento de aposentados e pensionistas do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS). Em gravações captadas por sistemas de monitoramento residencial, empresários investigados descrevem como recorreram ao ex-ministro da Previdência Social, José Carlos Oliveira, para chancelar contratos vantajosos com a autarquia pública.
Os diálogos, capturados no primeiro semestre de 2025, envolvem Anderson Cordeiro de Vasconcelos e Igor Dias Delecrode. Ambos integram o grupo apelidado pelos investigadores de golden boys — empresários com idades entre 30 e 40 anos que figuravam no comando formal de ao menos quatro entidades de classe: Amar Brasil, Master Prev, Aasap e Andapp. Juntas, essas associações teriam faturado mais de R$ 700 milhões por meio da cobrança automática de mensalidades por serviços não solicitados.
Intermediação política e repasses sob apuração
Nas gravações, os empresários relatam que a aproximação inicial com o comando da Previdência foi viabilizada por Wilson Roberto Gomes, pai de Felipe Macedo Gomes, outro membro do grupo. Segundo os relatos gravados, Wilson teria intermediado a primeira reunião decisiva com Oliveira para assegurar a assinatura do termo de cooperação técnica inaugural, porta de entrada para a atuação do grupo dentro da estrutura previdenciária.
O avanço das investigações e a quebra de sigilos bancários revelaram um fluxo suspeito de valores. Entre as movimentações identificadas pela PF, consta uma transferência direta de R$ 8 mil realizada por Felipe Macedo para a conta pessoal de José Carlos Oliveira, além de repasses adicionais cruzando empresários do setor privado e terceiros ligados ao grupo.
O primeiro acordo de cooperação técnica que favoreceu o grupo ocorreu ainda durante a gestão de Oliveira à frente do INSS, assinado por seu então sócio, Edson Yamada, também sob investigação. Somente essa parceria inicial rendeu mais de R$ 324 milhões entre 2021 e 2025. Posteriormente, novos convênios garantiram a continuidade das cobranças diretas, ampliando o alcance financeiro do grupo.
Medidas cautelares e posicionamento dos citados
Atualmente, o processo encontra-se na fase final de elaboração do relatório policial. Por determinação do Supremo Tribunal Federal (STF), os empresários do grupo passaram a cumprir medidas cautelares, incluindo o uso de tornozeleira eletrônica. O ex-ministro, que já havia sido indiciado por suspeita de propina em outro desdobramento do caso, também cumpria a mesma restrição até ter a medida revogada recentemente pela Justiça.
Diante das acusações, a defesa dos empresários sustenta desconhecer a autenticidade das gravações e alega que, caso os vídeos existam, foram obtidos por meios ilegais. Os advogados do ex-ministro José Carlos Oliveira negam qualquer irregularidade, afirmando que o ex-gestor jamais manteve relações comerciais ou pessoais com os envolvidos e que não exercia influência direta na celebração de acordos técnicos do INSS. A defesa de Wilson Roberto Gomes declarou que seu cliente não possui vínculo com as entidades investigadas.
