Durante um ato político realizado em Natal, no Rio Grande do Norte, o senador Flávio Bolsonaro reacendeu uma das controvérsias mais persistentes do debate público brasileiro: a paternidade das obras da Transposição do Rio São Francisco. O parlamentar assegurou que o fornecimento de água ao estado potiguar por meio do Ramal do Apodi foi um feito exclusivo da gestão de seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, associando as administrações do Partido dos Trabalhadores a promessas não cumpridas.

Segundo o discurso proferido pelo senador, as gestões do PT teriam fixado prazos de entrega em anos como 2009 e 2014 sem efetivar a chegada dos recursos hídricos à população local. Flávio ressaltou ainda que o montante aplicado nas intervenções da transposição destinadas ao Rio Grande do Norte ultrapassou a cifra de R$ 1,4 bilhão durante o governo de seu pai.

Um projeto secular e de múltiplos governos

Embora os investimentos recentes tenham garantido a vazão de água em trechos específicos, o resgate histórico da megalópole de canais revela uma trajetória bem mais longa e fragmentada. A ideia de perenizar bacias hidrográficas do semiárido remonta ao Segundo Reinado, mas ganhou formato técnico contemporâneo na gestão de Fernando Henrique Cardoso, em 1998.

A execução prática do projeto, contudo, teve início efetivo no segundo mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, com o lançamento das licitações em 2007 e o arranque das escavações em 2008. Concebida inicialmente para ser concluída em 2012, a obra enfrentou entraves burocráticos, revisões orçamentárias e impasses contratuais que arrastaram o cronograma ao longo de sucessivos mandatos presidenciais.

O papel de cada gestão no avanço dos eixos

Para compreender a evolução do projeto, é necessário examinar o aporte de infraestrutura realizado em diferentes etapas políticas:

  • Governo Lula (2007-2010): Elaboração do projeto executivo, licenciamento ambiental e início das obras do núcleo principal dos eixos Norte e Leste;
  • Governos Dilma Rousseff e Michel Temer (2011-2018): Período de maior avanço físico da estrutura bruta dos canais e estações de bombeamento;
  • Governo Jair Bolsonaro (2019-2022): Conclusão de estruturas remanescentes do ecrã principal e foco no desenvolvimento dos ramais de integração regional, como o Ramal do Agreste (PE) e o Ramal do Apodi (RN).

Quando a gestão Bolsonaro assumiu o Poder Executivo em 2019, a maior parte da estrutura física primária já estava edificada. A contribuição decisiva daquele período concentrou-se no arremate de troços e na viabilização de ramais secundários de distribuição, cruciais para que a água represada chegasse às torneiras dos municípios receptores. A consolidação total do sistema, contudo, permanece como uma agenda em contínuo desenvolvimento do infraestrutural brasileiro.