Belo Horizonte – Nos últimos dez anos, mais de 6 mil trabalhadores em Minas Gerais apresentaram transtornos mentais associados ao ambiente de trabalho, segundo dados do Painel Epidemiológico de Doenças e Agravos Relacionados ao Trabalho (DART), uma plataforma do Ministério da Saúde que compila notificações do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan). O estresse, a ansiedade e a depressão estão no topo da lista de diagnósticos, com profissionais da saúde sendo os mais afetados.

O desembargador Marcelo Pertence, do Tribunal Regional do Trabalho de Minas Gerais (TRT-MG), alertou que os números apresentados podem ser ainda mais preocupantes devido à subnotificação desses casos. Ele enfatizou que fatores como informalidade no emprego e a falta de acompanhamento de acidentes de trabalho, especialmente entre trabalhadores informais, como os motociclistas de aplicativo, contribuem para essa invisibilidade.

“É importante ressaltar que a subnotificação de doenças e acidentes de trabalho no Brasil pode ultrapassar 50%. Os números refletem apenas uma parte da realidade, já que o reconhecimento dos transtornos mentais depende de uma avaliação clínica que leva em conta diversos aspectos da vida do trabalhador”, destacou Pertence.

Nos últimos dois anos, o Brasil registrou um aumento significativo nos afastamentos relacionados a doenças mentais, com 472 mil casos em 2024, subindo para 546.254 em 2025. Pertence observou que essa tendência é alarmante, mas não deve ser interpretada como uma diminuição de acidentes e doenças físicas.

Profissões em Destaque

  • Os trabalhadores da saúde lideram as notificações, seguidos por profissionais da educação, comércio e funções administrativas.
  • Agentes comunitários de saúde registraram 301 casos, enquanto técnicos de enfermagem contabilizaram 292.
  • Professores, operadores de caixa e gerentes de contas também estão entre as profissões mais afetadas.

A psicóloga Andressa Antunes, conselheira do Conselho Regional de Psicologia (CRP-MG), enfatiza que muitas dessas profissões lidam com intenso contato humano e altas cargas emocionais, frequentemente sem a autonomia necessária para gerenciar suas condições de trabalho.

Além disso, Pertence apontou que a pressão por resultados e o assédio moral são fatores que agravam a saúde mental dos trabalhadores. “Eventos traumáticos, como sequestros de gerentes de bancos, e a pressão constante por produtividade podem levar a sérios problemas de saúde mental”, alertou.

A psicóloga também destacou que a cultura da hiperprodutividade, que valoriza o trabalho incessante, contribui para o adoecimento emocional. “Quando o descanso precisando ser produtivo, o corpo acaba cobrando esse preço”, afirmou.

O debate sobre a jornada de trabalho no Brasil ganhou força recentemente, com a Câmara dos Deputados aprovando uma proposta de emenda à Constituição que propõe a redução da jornada de trabalho de 44 para 40 horas semanais, sem redução salarial, agora aguardando análise no Senado.

A Situação das Mulheres nos Registros

Um dado preocupante é que, entre as notificações dos últimos dez anos, 66,18% pertencem a mulheres, que estão predominantemente inseridas em profissões como enfermagem e docência. A diretora do Sindicato dos Trabalhadores da Saúde (Sind-Saúde/MG), Lionete Pires, destacou que os profissionais da saúde, especialmente os agentes comunitários, enfrentam pressões constantes e muitas vezes não conseguem separar suas vidas pessoais do trabalho.

“É necessário implementar políticas eficazes de saúde do trabalhador que ofereçam suporte multidisciplinar e melhorem as condições de trabalho. O sofrimento não deve ser tratado como uma responsabilidade individual”, concluiu Lionete.