A urgência de medicamentos para obesidade no SUS

Nos últimos anos, os agonistas do receptor de GLP-1 têm se mostrado promissores no tratamento da obesidade, apresentando resultados expressivos. No entanto, a sua disponibilidade permanece restrita a uma parcela da população, com nenhuma previsão de incorporação ao Sistema Único de Saúde (SUS). O endocrinologista Bruno Halpern, presidente da Federação Mundial de Obesidade, defende a inclusão desses medicamentos no SUS, aliada à capacitação de profissionais e ao desenvolvimento de um modelo de cuidado adequado.

Durante o 37º Congresso Brasileiro de Endocrinologia e Metabologia, realizado no Rio de Janeiro, Halpern afirmou: "Precisamos ter acesso a medicamentos para obesidade no SUS. Além disso, é fundamental criar uma linha de cuidado que envolva tratamento especializado". O médico destaca que a obesidade é um problema de saúde pública no Brasil, afetando cerca de 30% da população e contribuindo para a incidência de mais de 200 doenças, incluindo problemas cardiovasculares e câncer.

Desafios da obesidade e tratamentos disponíveis

A obesidade, considerada uma doença crônica complexa, ainda conta com opções limitadas de tratamento no Brasil, sendo a cirurgia bariátrica a única abordagem oferecida atualmente pelo governo. Segundo Halpern, após a cirurgia, o paciente necessita de acompanhamento prolongado, o que ressalta a necessidade de uma alternativa medicamentosa para aqueles que não são indicados para a operação.

Apesar de tentativas de inclusão dos medicamentos pelo setor, as solicitações foram frequentemente negadas pela Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no Sistema Único de Saúde (Conitec), sob o argumento de que o impacto orçamentário é elevado. O endocrinologista, por sua vez, alerta para o “custo da inação”, enfatizando que não oferecer tratamento resulta em consequências econômicas e sociais profundas, além de um aumento significativo nos gastos com saúde.

A desigualdade no acesso ao tratamento

Halpern também critica a desigualdade no acesso aos tratamentos para obesidade, que muitas vezes se torna elitista. Enquanto pessoas com maior poder aquisitivo têm acesso a terapias avançadas, as classes mais vulneráveis ficam à mercê de alternativas inadequadas e produtos não regulamentados. "O crescimento da obesidade é mais acentuado entre jovens e populações de baixa renda", sublinha.

Para reverter essa situação, Halpern propõe iniciativas como parcerias público-privadas, negociações com indústrias farmacêuticas e a definição de um público-alvo para o tratamento. A introdução de medicamentos orais, genéricos acessíveis e opções sem patente também representa um avanço na democratização do acesso aos tratamentos, priorizando a saúde em vez da estética.

Formação e capacitação de profissionais de saúde

Um dos principais obstáculos para a implementação de um cuidado eficaz para a obesidade é a falta de formação dos profissionais de saúde, uma vez que o tema não é abordado de maneira abrangente nas instituições de ensino. Halpern enfatiza a importância de um atendimento que seja respeitoso e livre de estigmas, além de infraestrutura adequada para atender pacientes com obesidade severa.

Por fim, ele ressalta que a resistência à inclusão de medicamentos de GLP-1 e outras opções preventivas no SUS pode ser atribuída à falta de dados atualizados e à visão limitada de que apenas mudanças na dieta e exercícios físicos são suficientes para combater a obesidade.