Uma recente pesquisa realizada pela Universidade Federal de Goiás (UFG) trouxe à luz um fenômeno intrigante nas temperaturas da superfície em diferentes bairros de Goiânia, com variações que podem alcançar até 19°C. O estudo, parte da tese de doutorado de Ana Cristina Araújo Foli, indica que o Jardins do Cerrado, localizado na região oeste da cidade, apresenta uma temperatura de superfície impressionante de cerca de 40°C, enquanto o Residencial Aldeia do Vale, na parte nordeste, registra temperaturas significativamente mais baixas, em torno de 21°C.

Essa discrepância foi classificada como uma ilha de calor urbana de intensidade muito forte, revelando a necessidade de atenção para as condições térmicas da cidade. Para coletar os dados, a pesquisa utilizou imagens térmicas obtidas via satélite, especificamente do Landsat 8, registradas em 12 de setembro de 2021.

A pesquisa não apenas destacou a diferença entre as temperaturas da superfície, mas também trouxe à tona questões importantes sobre a ocupação urbana e a vegetação. A engenheira civil e vice-presidente do Crea-GO, Juliana Matos, enfatiza que o crescimento urbano, que frequentemente substitui áreas verdes por asfalto e concreto, está diretamente relacionado ao aumento das temperaturas. Os materiais de construção absorvem calor durante o dia e demoram a esfriar, enquanto as árvores oferecem sombra e ajudam a manter a temperatura do ambiente mais amena.

A diferença de 19°C observada entre os dois bairros não reflete necessariamente as temperaturas do ar, mas sim as condições térmicas da superfície. No dia em questão, a estação do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) em Goiânia reportou temperaturas máximas de 39,1°C e mínimas de 22,2°C. O estudo enfatiza que o contraste térmico é mais uma questão de como diferentes áreas da cidade respondem à radiação solar e às condições do solo.

A análise revelou que, em seis comparações entre regiões quentes e amenas da capital, todas foram classificadas como ilhas de calor de intensidade “muito forte”, variando entre 10°C e 19°C. Além do Jardins do Cerrado e do Residencial Aldeia do Vale, outros bairros como Setor Campinas e Setor Bueno também apresentaram diferenças significativas, com variações que chegaram a 15°C.

As variáveis que explicam esse contraste incluem a densidade das construções, a cobertura vegetal e o uso do solo. O Jardins do Cerrado, sendo uma área de ocupação mais recente, tem menor arborização, enquanto o Residencial Aldeia do Vale foi projetado com vastas áreas verdes e lagos, criando um microclima mais ameno.

O estudo propõe uma reflexão sobre o planejamento urbano em Goiânia, sugerindo que políticas de arborização, drenagem e ocupação do solo sejam integradas para enfrentar os desafios climáticos. A necessidade de tratamento holístico nas questões urbanas é um ponto ressaltado por especialistas, que alertam para a vulnerabilidade social em relação ao calor.

Com temperaturas frequentemente atingindo recordes em Goiás, a pesquisa da UFG destaca a importância de reconhecer as diferenças microclimáticas e agir de maneira que promova um ambiente urbano mais sustentável e justo para todos os moradores de Goiânia.