A Polícia Civil do Rio de Janeiro, em colaboração com o Ministério Público do Estado (MPRJ), lançou na última quarta-feira (15/7) a Operação Hawala, com o objetivo de desmantelar uma organização criminosa acusada de lavar mais de R$ 100 milhões originários de atividades ilícitas. As investigações revelam uma possível ligação entre os membros do grupo e um operador financeiro associado à Al-Qaeda, a notória organização terrorista.

Até o momento, nove pessoas foram detidas, enquanto a Justiça emitiu 10 mandados de prisão e 37 ordens de busca e apreensão, que foram executados não apenas no Rio de Janeiro, mas também em São Paulo, Minas Gerais e Foz do Iguaçu, no Paraná. As ações judiciais incluem medidas de bloqueio de ativos financeiros e a indisponibilidade de bens e participações em empresas relacionadas ao esquema.

Conforme os dados levantados durante as investigações, a estrutura criminosa prestava serviços ao Terceiro Comando Puro (TCP), além de estar ligada a outros grupos como o Comando Vermelho (CV) e o Primeiro Comando da Capital (PCC). As investigações começaram devido à atuação do TCP no Complexo de São Carlos, na capital fluminense, mas logo se expandiram, revelando uma rede complexa que movimentava recursos ilícitos para várias facções criminosas.

Entre 2021 e 2024, o grupo utilizou uma série de empresas de fachada para dar uma aparência legítima aos ganhos obtidos por meio de tráfico de drogas, receptação e comércio de produtos falsificados. Os investigadores descobriram a prática de transferências entre pessoas jurídicas, depósitos fracionados em dinheiro e o uso de “laranjas” para encobrir as movimentações financeiras, que eram desproporcionais à renda relatada pelos indivíduos envolvidos.

A análise de dados contou com a colaboração do Laboratório de Tecnologia contra Lavagem de Dinheiro (LAB-LD), que ajudou a aprofundar as investigações. Além disso, uma rede de empresários de origem libanesa foi identificada, sendo suspeita de facilitar a movimentação interestadual e internacional dos recursos oriundos do crime.

Os agentes também encontraram indícios de operações na Tríplice Fronteira, uma área entre Brasil, Paraguai e Argentina, reconhecida por ser um ponto estratégico no combate à lavagem de dinheiro e ao financiamento do terrorismo. Um dos aspectos mais preocupantes é a conexão comercial entre uma das empresas do grupo e um indivíduo sancionado pelo Escritório de Controle de Ativos Estrangeiros (OFAC), vinculado ao Departamento do Tesouro dos Estados Unidos, e que é considerado um membro da estrutura de financiamento da Al-Qaeda.

A ligação entre essa empresa e o financiamento terrorista será investigada mais a fundo, utilizando documentos e equipamentos que foram apreendidos durante a operação. Além disso, informações indicam que uma operadora financeira estava à frente de empresas que movimentaram mais de R$ 47 milhões no período em questão. Um contador ligado ao esquema teria a função de conferir uma aparência de legalidade às operações, ignorando movimentações suspeitas que deveriam ser reportadas ao Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf).

A Operação Hawala está sendo realizada por agentes da Delegacia de Defesa dos Serviços Delegados (DDSD), com suporte da Coordenadoria de Recursos Especiais (Core), do Departamento-Geral de Polícia Especializada (DGPE) e do Grupo de Atuação Especializada de Combate ao Crime Organizado (Gaeco/MPRJ). As investigações continuam na busca por outros envolvidos e para rastrear os fluxos internacionais de dinheiro.