Ao longo de 34 anos, dos quais 20 passaram imersos nas redes sociais, é esperado que se aprenda algo sobre as armadilhas desse universo. Um dos ensinamentos mais evidentes deveria ser evitar os comentários em publicações de notícias e memes, pois essas interações frequentemente revelam o lado sombrio da natureza humana. Contudo, mesmo ciente disso, a tentação de lê-los persiste.
A experiência de viver entre a Europa e as Américas, especialmente entre Brasil e Portugal, proporciona uma visão ampla sobre os debates atuais. A ascensão de ideologias extremistas, como a ultradireita, tem se manifestado de forma alarmante nos dois continentes nos últimos anos. Apesar do conhecimento sobre esses contextos, a curiosidade muitas vezes fala mais alto, e a leitura dos comentários acaba se tornando uma inevitável fraqueza.
Durante a realização do doutorado, uma conversa marcante com uma colega que estudava comentários em redes sociais me fez refletir sobre a “ideologia de gênero” no Brasil. Esse fenômeno trouxe consigo termos infames como “mamadeira de piroca” e “kit-gay”, revelando um mar de desinformação e preconceito. Mesmo com esse conhecimento, ao me deparar com comentários sobre imigração no Instagram, a sensação é a mesma: a de estar cercado por hostilidade. Essa busca por engajamento com a polêmica se torna uma experiência angustiante, mas fascinante.
O argumento da renomada ensaísta Susan Sontag sobre a insensibilidade diante da dor alheia ressoa profundamente em tempos de comentários violentos e intolerantes nas redes. O fato de ainda nos chocarmos com essa banalidade é indicativo de nossa humanidade. O espanto, longe da indiferença, deve ser um convite à reflexão sobre nossa própria responsabilidade enquanto cidadãos.
É fundamental questionar como as escolhas que fazemos em nossa vida cotidiana, incluindo a seleção de nossos líderes, podem estar ligadas à vilificação de imigrantes e membros da comunidade LGBT+. Não busco o entretenimento mórbido que a leitura desses comentários proporciona, mas sim uma compreensão mais profunda da realidade que me cerca.
Para minimizar essas interações negativas, optei por desinstalar as redes sociais do meu celular na maior parte do tempo. Como imigrante e parte da comunidade LGBT+, tenho consciência de que, para alguns, minha vida e a de outros semelhantes têm pouco valor. Isso se traduz em uma série de comentários desumanos sobre crises de refugiados e guerras, que muitas vezes são tratados como meros eventos esportivos.
Recentemente, enquanto apreciava o pôr do sol em Lisboa, longe do ruído das redes sociais, percebi a riqueza das interações humanas. Não sabia que um atendente da drogaria, com simpatia, me ajudaria a entender como trocar a fechadura da minha casa. Também não imaginava que uma vizinha portuguesa se apresentaria com um prato de comida e flores, ou que uma colega italiana me convidaria para um café para aliviar minha ansiedade. Essas experiências, longe da toxicidade das redes, revelaram um lado da vida que eu ainda não conhecia e aprecio profundamente.
Assim, fica claro que há muitas verdades ainda não descobertas, e é esse desconhecimento que enriquece a vida, permitindo que eu continue aprendendo e me conectando de maneira mais significativa com o mundo.




