Nos últimos anos, o Brasil tem testemunhado uma mudança significativa em seu cenário turístico, impulsionada pelo modelo de multipropriedade. Este conceito imobiliário, que permite que várias pessoas compartilhem a propriedade de um mesmo imóvel em períodos determinados, está se espalhando por diversas cidades, transformando locais pouco conhecidos em destinos cobiçados.

Antes de se tornarem renomados, destinos turísticos como Gramado, Olímpia e Salinópolis eram apenas pontos no mapa, reconhecidos apenas por habitantes locais. Com o advento da multipropriedade, essas cidades não só atraem turistas, mas também experimentam um crescimento econômico robusto e um aumento na infraestrutura turística.

A regulamentação da multipropriedade, introduzida pela Lei nº 13.777 em dezembro de 2018, foi um marco importante para o setor. Desde então, o modelo deixou de ser uma alternativa restrita a poucos destinos e se estabeleceu em quase todas as regiões do Brasil. Um estudo realizado pela Caio Calfat Real Estate Consulting revelou que existem atualmente 224 empreendimentos de multipropriedade distribuídos em 99 cidades, somando mais de 44 mil unidades habitacionais e um Valor Geral de Vendas (VGV) potencial superior a R$ 100 bilhões.

O especialista Caio Calfat observa que o crescimento do setor se intensificou após a criação da lei, proporcionando segurança jurídica para investidores e consumidores. Em 2020, havia 109 empreendimentos em 59 cidades, número que praticamente dobrou em apenas seis anos, com uma expansão notável em áreas antes não exploradas.

O estudo mais recente indica uma maturidade do mercado, com um equilíbrio entre lançamentos e vendas. A redução das frações não vendidas de 58,9% para 52,5% e o aumento das vendas de R$ 26,7 bilhões para R$ 29,8 bilhões refletem essa nova realidade. Segundo Calfat, esse amadurecimento do mercado é positivo, sugerindo um cenário mais estável para os preços.

Um aspecto fascinante do crescimento da multipropriedade é a descoberta de novos destinos turísticos. Cerca de 30% dos municípios que adotaram esse modelo ainda são desconhecidos em nível nacional. Regiões com beleza natural, como lagos e cachoeiras, estão começando a receber a infraestrutura necessária para se tornarem atrativas para os turistas, o que, segundo Calfat, representa uma oportunidade para o setor.

Exemplos de sucesso como o de Olímpia e Salinópolis demonstram o impacto positivo da multipropriedade. Olímpia, que não era um destino turístico há apenas 15 anos, agora possui cerca de 8 mil apartamentos de multipropriedade e um crescente número de leitos em hotéis e resorts. O município também está em processo de inaugurar um aeroporto internacional, mostrando o potencial transformador desse modelo.

Salinópolis, por sua vez, no litoral do Pará, se tornou um exemplo de como a multipropriedade pode revitalizar uma região. Desde a introdução de empreendimentos de multipropriedade, a arrecadação municipal saltou de R$ 82,5 milhões em 2018 para mais de R$ 199 milhões em 2025, além de gerar mais de 1.200 empregos diretos.

O efeito da multipropriedade vai além da criação de quartos em hotéis; ela gera um ciclo de crescimento que inclui a valorização imobiliária, a criação de novos negócios e o fortalecimento da cultura local. Quando as famílias visitam os novos empreendimentos, muitas vezes ficam encantadas com a cidade e recomendam o destino a amigos e familiares, contribuindo para a popularização de locais antes esquecidos.

O Nordeste é considerado a próxima grande fronteira para a expansão da multipropriedade, onde já se observa um aumento no interesse por investimentos turísticos. Assim, o Brasil está não apenas diversificando seu portfólio turístico, mas também redefinindo o conceito de viagem e estadia através da multipropriedade.