A diplomacia presidencial brasileira enfrenta um momento de inflection enquanto Nova Délhi se converte no epicentro da geopolítica do Sul Global. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva optou por não desembarcar na Índia para a cúpula dos BRICS realizada neste fim de semana, tornando-se o único chefe de Estado entre as nações fundadoras do bloco a se ausentar do encontro diplomático. A decisão prioriza a agenda política interna e a corrida pela reeleição no Brasil, transferindo a liderança da comitiva nacional ao ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira.
Esta é a primeira vez desde o encontro de Brasília, em 2019, que o quinteto original não reúne seus mandatários na mesma mesa. À época, o Palácio do Planalto era ocupado por Jair Bolsonaro. No cenário indiano contemporâneo, os demais formuladores históricos do grupo confirmaram presença com suas respectivas lideranças consolidadas: o russo Vladimir Putin, o chinês Xi Jinping, o sul-africano Cyril Ramaphosa e o anfitrião indiano Narendra Modi.
Um tabuleiro expandido e reconfigurado
A reunião em solo indiano simboliza a consolidação da nova arquitetura do BRICS, impulsionada pelo processo de expansão implementado nos últimos anos. A mesa de negociações em Nova Délhi conta com chefes de Estado e representantes diplomáticos de um bloco que agora contabiliza 11 integrantes efetivos, além de países parceiros de peso geopolítico significativo.
Entre as presenças mais observadas pelas chancelarias ocidentais estão:
- Masoud Pezeshkian, presidente do Irã;
- Abdel Fattah el-Sisi, presidente do Egito;
- Prabowo Subianto, presidente da Indonésia;
- Abiy Ahmed Ali, primeiro-ministro da Etiópia;
- Khaled bin Mohamed bin Zayed Al Nahyan, príncipe herdeiro de Abu Dhabi (Emirados Árabes Unidos).
Reaproximação sino-indiana e o retorno de Vladimir Putin
Um dos movimentos diplomáticos mais expressivos da cúpula é a visita de Xi Jinping a Nova Délhi, interrompendo um hiato de sete anos sem viagens oficiais do líder chinês à Índia. Acompanhado por uma robusta delegação de 400 integrantes, o movimento de Pequim sinaliza o desejo de distensão bilateral com os indianos, após anos de atrito na fronteira do Himalaia e desconfianças alimentadas pelas alianças militares entre a China e o Paquistão.
Paralelamente, a cúpula marca o retorno presencial do presidente russo Vladimir Putin às grandes conferências globais fora de sua zona imediata de influência. Após não comparecer ao encontro promovido no Brasil em 2025, o mandatário russo desembarcou na capital indiana respaldado pela postura de neutralidade pragmática mantida por Nova Délhi diante das sanções ocidentais impostas a Moscou.
Mediação de tensões no Oriente Médio
O encontro multilateral também serve como palco para delicadas conversas de bastidor. A presença do presidente iraniano Masoud Pezeshkian impõe uma dinâmica complexa ao evento, colocando-o no mesmo ambiente que representantes dos países árabes que abrigam instalações militares norte-americanas atingidas recentemente por incursões de Teerã.
Neste cenário de alta fricção regional no Oriente Médio, as diplomacias de China, Índia e Rússia buscam atuar como moderadoras, tentando equilibrar suas parcerias estratégicas na região com o objetivo de manter a coesão interna do BRICS expandido.



