O impacto da ditadura militar brasileira na vida de cidadãos comuns é o tema central do novo livro de Danilo Heitor, intitulado Projeto Futuro, publicado pela editora País Nenhum. A obra retrata a trajetória de Rosalina e Fernando Santa Cruz, irmãos cujas vidas foram marcadas pela repressão e pela busca pela verdade.

Rosalina, uma figura emblemática na resistência ao regime militar, e seu irmão Fernando, que se tornou um preso político desaparecido em 1974, têm suas histórias transformadas em uma narrativa ficcional que conecta passado e presente. A trama gira em torno de Soraia e Leilane, duas jovens prestes a se formar no ensino médio, que, ao se depararem com um e-mail inesperado, descobrem a existência de um projeto clandestino datado da ditadura, que utilizava prisioneiros políticos em experimentos de viagem no tempo.

Como o livro aborda temas delicados, é essencial entender quem foram esses protagonistas. Rosalina Santa Cruz foi uma militante ativa em organizações de esquerda, como a Ação Popular Marxista-Leninista (APML) e a VAR-Palmares. Presa em duas ocasiões no início dos anos 70, ela enfrentou torturas brutais, incluindo choques elétricos e confinamento em condições desumanas.

Seu irmão, Fernando, também militante, desapareceu após ser detido em 1974, com apenas 26 anos. A luta de Rosalina por respostas sobre o destino de Fernando a levou a descobrir que o Estado tinha conhecimento de sua prisão, apesar das negações do regime. A Comissão Nacional da Verdade reconheceu que Fernando foi assassinado pela repressão, mas seu corpo nunca foi encontrado, o que perpetua a dor da família.

Atualmente, Rosalina continua sua batalha pelos direitos humanos e pela memória dos desaparecidos políticos. Ela compartilha sua experiência dolorosa, afirmando que reviver essas memórias não é fácil, mas é essencial: “Encarar tudo isso como uma ficção é um alívio, mas a realidade ainda me atormenta”.

A proposta de Heitor, ao entrelaçar ficção e história real, é tornar o tema acessível a um público mais jovem, que muitas vezes vê a ditadura como um mero capítulo de livro didático. Ele ressalta a importância de usar a ficção científica para chamar a atenção dos estudantes, permitindo que eles se conectem emocionalmente com o passado.

“A viagem no tempo na narrativa é uma metáfora poderosa. Representa a memória dos desaparecidos, que só 'reaparecem' através das histórias que seus entes queridos contam”, afirma Heitor. Esse enfoque ajuda a transmitir a luta por justiça e a importância de nunca esquecer aqueles que sofreram.

Com Projeto Futuro, Danilo Heitor não apenas homenageia a memória de Rosalina e Fernando, mas também contribui para que as novas gerações compreendam a gravidade e as consequências da repressão que ocorreu no Brasil. A obra é, portanto, uma chamada à reflexão e à preservação da memória histórica.