Uma nova pesquisa internacional revelou a existência de mais de 40 mil vírus desconhecidos que circulam em áreas urbanas, como estações de transporte e hospitais. O estudo, que abrangiu 102 cidades em 31 países, incluindo São Paulo, foi divulgado na revista Nature Communications e resultou na catalogação de 54.945 espécies virais, das quais cerca de 77% nunca foram descritas anteriormente.
O projeto, conhecido como UPVAtlas (Atlas de Vírus de RNA Urbanos e Periurbanos), foi realizado por uma equipe de pesquisadores, incluindo o professor Antônio Pedro Camargo, do Instituto de Química da Universidade de São Paulo (IQ-USP). A pesquisa destaca a rica e inexplorada diversidade biológica que coexistem com a vida urbana, revelando um mundo invisível de microrganismos.
Focando em vírus de RNA, que são aqueles que possuem suas informações genéticas em moléculas de RNA, e não em DNA, o estudo incluiu vírus conhecidos por causar doenças como dengue, zika e covid-19. Camargo enfatiza a importância da pesquisa: “Anteriormente, conhecíamos alguns vírus patogênicos, mas ignorávamos a vasta diversidade viral na natureza. Ao investigar sem preconceitos, podemos entender melhor essa complexidade.”
Coleta de Amostras e Metodologia
A pesquisa analisou 2.922 amostras, sendo que a maior parte delas (1.862) foi coletada por meio da iniciativa MetaSUB, que estuda o microbioma em ambientes urbanos. As coletas ocorreram entre março e julho de 2020, durante o auge da pandemia de covid-19, e utilizaram um protocolo padronizado que envolvia esfregar um cotonete em superfícies frequentemente tocadas.
Além disso, as amostras também foram retiradas de bancos de dados públicos e incluíram médiuns como solo, água e esgoto, analisados pela técnica de metatranscriptômica. Essa técnica possibilita o sequenciamento de múltiplas moléculas de RNA em uma única amostra, permitindo a identificação de uma ampla gama de microrganismos.
Camargo explica que, ao extrair e sequenciar o RNA, é possível obter fragmentos que, inicialmente, não têm identificação clara. A utilização da ferramenta geNomad, desenvolvida por ele, auxiliou na triagem e identificação dos genomas virais encontrados.
Resultados e Implicações
Os resultados indicam que a diversidade viral nas cidades é muito maior do que a previamente reconhecida. Entretanto, o estudo esclarece que a descoberta de novos vírus não significa necessariamente que eles sejam capazes de infectar humanos. A pesquisa identificou cerca de 60 vírus com potencial para infectar seres humanos, dos quais 19 são de origem urbana.
Além disso, foram encontrados 166 bacteriófagos, vírus que atacam bactérias, que têm relevância clínica significativa, pois podem ser utilizados em tratamentos antimicrobianos. A pesquisa também sugere que o esgoto se destaca como um ambiente com alta diversidade viral, reforçando sua utilidade no monitoramento ambiental.
Desafios e Futuro da Pesquisa
A análise da diversidade viral é complexa, e as conclusões devem ser interpretadas com cautela. Os autores reconhecem limitações na amostragem, já que alguns países foram representados por apenas um tipo de ambiente. O mapeamento realizado pelo UPVAtlas proporciona uma base para futuras comparações, possibilitando o estudo da evolução das comunidades virais ao longo do tempo.
Camargo enfatiza a importância de entender essa diversidade, já que os vírus estão em constante evolução, o que tem impactos diretos na capacidade deles de infectar organismos. O artigo completo, intitulado Diversity and distinctive characteristics of the global RNA virome in urban and peri-urban environments, pode ser acessado na Nature Communications.




