A Doença de Creutzfeldt-Jakob (DCJ), uma condição neurodegenerativa rara e agressiva, ganhou destaque após o diagnóstico do influenciador e especialista em aviação Lito Sousa, anunciado por sua família em agosto. Com essa revelação, surgiram indagações sobre a possibilidade de tratamento para essa enfermidade. A verdade é que, até o momento, não existe cura que possa reverter ou interromper a progressão da DCJ, sendo o tratamento focado no alívio dos sintomas e no conforto do paciente.

Tradicionalmente, a abordagem terapêutica para a DCJ é limitada. A grande novidade é que, pela primeira vez, estão sendo testados medicamentos que atuam diretamente nos mecanismos da doença. Um dos grupos de pesquisa que investiga essas novas estratégias é o Instituto de Bioquímica Médica Leopoldo de Meis da UFRJ, que está envolvido em estudos ainda em fase pré-clínica.

O Que Causa a Doença de Creutzfeldt-Jakob?

A DCJ é provocada por prions, que não são vírus ou bactérias, mas sim proteínas anormais produzidas pelo próprio corpo. Essas proteínas alteradas induzem uma mudança nas proteínas normais, gerando uma reação em cadeia que resulta no acúmulo dessas formas anormais e prejudica o funcionamento cerebral. Essa condição é extremamente rara, com 1 a 2 casos a cada milhão de habitantes anualmente, e na maioria dos casos, a origem é esporádica, sem uma fonte de infecção claramente identificável.

Novas Estratégias Terapêuticas

Duas abordagens inovadoras já estão sendo testadas em pacientes. A primeira, chamada ION717, é um oligonucleotídeo que busca interferir na produção da proteína priônica, recrutando 56 participantes para um ensaio clínico em 2024. Os resultados, no entanto, só devem ser divulgados em 2027. A segunda estratégia, chamada PRiSM, usa pequenas moléculas de RNA para reduzir a produção da mesma proteína, com um estudo envolvendo 15 pacientes em fase inicial, focado em segurança e tolerância.

Além dessas, há um ensaio clínico randomizado na China testando o medicamento efavirenz, que é utilizado no tratamento do HIV, embora ainda não tenha iniciado a fase de recrutamento de participantes. Apesar das inovações, até o momento, nenhuma das abordagens demonstrou eficácia em interromper a progressão da DCJ em seres humanos.

Pesquisas e Resultados Promissores

Outros tratamentos já foram testados no passado, como a quinacrina e a doxiciclina, mas sem sucesso em modificar o avanço da doença. A mudança atual na pesquisa é a intenção de se focar em moléculas que atuem diretamente no mecanismo da DCJ, mostrando eficácia em modelos animais.

Um estudo recente da UFRJ, em colaboração com outras universidades, trouxe à luz o potencial da planta Moringa oleífera. Pesquisadores identificaram dois compostos da planta que se ligam à proteína priônica e reduziram a formação de agregados em ambientes laboratoriais, destacando a utilidade de metodologias de pesquisa para identificar moduladores de agregação em produtos naturais.

A Importância do Diagnóstico Precoce

Um dos avanços significativos no Brasil é a implementação do teste RT-QuIC, disponível na UFRJ, que consegue detectar a conversão da proteína priônica no líquido cefalorraquidiano, confirmando o diagnóstico durante a vida do paciente. Dada a natureza progressiva da DCJ, um diagnóstico preciso é essencial para excluir outras causas e direcionar o tratamento adequado.

Embora a DCJ continue sendo uma doença incurável e devastadora, os recentes avanços em pesquisa oferecem uma nova perspectiva, reforçando a importância da busca por evidências científicas. Os estudos em andamento demonstram um comprometimento da comunidade científica em desenvolver alternativas que possam melhorar a qualidade de vida dos pacientes e, talvez um dia, encontrar uma cura.