O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) está adotando uma postura pragmática diante das recentes vitórias de políticos conservadores na América do Sul. A expectativa é que, mesmo com a ascensão de líderes de direita, as relações bilaterais com países da região permaneçam estáveis e produtivas.

Na última semana, a Colômbia elegeu Abelardo de la Espriella, um candidato do espectro conservador, enquanto no Peru, Keiko Fujimori avançou de maneira decisiva na contagem de votos para ser proclamada presidente. Auxiliares de Lula acreditam que esses líderes buscarão estabelecer uma cooperação prática com o Brasil, focando em interesses comuns, como infraestrutura, combate ao crime organizado e enfrentamento de crises climáticas.

Um exemplo dessa aproximação já foi observado: Abelardo de la Espriella respondeu a uma mensagem de Lula nas redes sociais, expressando seu desejo de manter um relacionamento de cooperação com o Brasil e enfatizando a importância da união entre os países da América para enfrentar desafios compartilhados. Em suas palavras, ele destacou que “o continente americano enfrenta problemas comuns que só podem ser superados através de um esforço conjunto, respeitoso e soberano.”

Essa sinalização foi bem recebida por membros do Palácio do Planalto, que inicialmente viam a postura de Espriella como uma incógnita no campo diplomático. Os assessores de Lula estão optimistas quanto à possibilidade de manter um diálogo pragmático, mesmo diante das diferenças ideológicas.

No entanto, a análise do cenário político sul-americano indica um possível enfraquecimento de fóruns multilaterais, como a Celac e a Unasul, que podem se tornar politicamente inviáveis diante do avanço de governos de direita. As mudanças no tabuleiro político da região têm se intensificado, com várias transições de governo ocorrendo nos últimos meses.

Para se ter uma ideia, até novembro de 2023, a Argentina viu a ascensão do liberal Javier Milei, enquanto na Bolívia, Luis Arce Catacora, ligado a Evo Morales, foi sucedido por Rodrigo Paz, um político de direita. No Chile, José Antonio Kast assumiu a presidência, substituindo o esquerdista Gabriel Boric, e na Colômbia, a transição ocorreu do governo de Gustavo Petro para o conservador Abelardo de la Espriella. Em junho de 2026, o Peru também deve passar de um governo de esquerda para outro de direita.

De acordo com Rogério Pereira Campos, doutor em Ciências Sociais, a expectativa do governo brasileiro de cultivar relações pragmáticas com líderes de direita está em consonância com a tradição diplomática do Brasil, que tende a preservar a continuidade nas relações exteriores, independentemente das mudanças políticas nas nações vizinhas.

Campos ressalta que a habilidade diplomática do Brasil permite a manutenção de interesses nacionais, mesmo em cenários adversos. Ele observa que, mesmo com diferenças ideológicas, líderes como Javier Milei reconhecem a dependência da Argentina em setores que o Brasil fornece, o que favorece a continuidade das relações comerciais.

Além disso, Campos explica que os acordos firmados no âmbito da ALADI e do Mercosul são fundamentais para minimizar riscos de rupturas nas relações comerciais, mesmo em um contexto político mais conservador. Ele menciona que, apesar de uma maior resistência na criação de novas parcerias com governos ultradireitistas, o impacto negativo de uma eventual ruptura afetaria mais os países da América do Sul de língua espanhola do que o Brasil.

Com a recente ascensão de líderes de direita em sete dos doze países da América do Sul, que agora representam cerca de 58,3% da população da região, o Brasil se vê diante de um novo cenário, mas mantém a esperança de um diálogo construtivo com seus vizinhos.