Um ofício em extinção?

No coração de Goiânia, em um espaço modesto de apenas 10 metros quadrados, Wilson de Sousa Neto, um dedicado sapateiro de 46 anos, demonstra que o trabalho manual ainda tem seu valor. O ambiente é permeado pelo aroma de couro, cola e tinta, uma verdadeira ode à resistência de uma profissão que muitos consideram ultrapassada.

Desde os 12 anos, Wilson se destaca na arte de consertar sapatos e artigos de couro, um ofício que herdou de seu pai. Com a experiência acumulada ao longo de 34 anos, ele tem visto a transformação do consumo e a crescente cultura do descartável.

Uma história de dedicação

A trajetória de Wilson começou em sua infância, quando aprendia a fabricar botinas em casa. “Aprendi a fazer botinas e posteriormente me especializei em bolsas e sandálias femininas”, compartilha. Ao contrário do que muitos pensam, seu trabalho não se limita a consertar objetos, mas sim a revitalizar histórias e memórias que os clientes desejam preservar.

Enquanto a indústria moderna se apressa para produzir em massa, Wilson adota uma abordagem mais cuidadosa. Ele desmonta, limpa, costura, e repara os itens, devolvendo ao cliente um produto que pode ser utilizado novamente, desafiando a lógica do consumo rápido que predomina atualmente.

Valor além do preço

Embora a percepção generalizada sugira que a profissão de sapateiro está em declínio devido aos produtos acessíveis e descartáveis, Wilson argumenta que sua experiência conta outra história. “Muitas vezes, os clientes trazem sapatos e bolsas de marcas renomadas e estão dispostos a investir na recuperação, pois o valor emocional supera o financeiro”, explica.

Além de lidar com itens caros, Wilson frequentemente encontra objetos que não possuem um preço significativo, mas que carregam um forte valor sentimental. “Recebo itens que foram presentes de familiares falecidos, e restaurá-los significa muito mais do que uma simples reparação”, diz.

A importância da memória afetiva

Para muitos, o trabalho de Wilson transcende a função de um sapateiro; ele atua como um guardião de memórias. Cada peça que passa por suas mãos é uma história viva, e sua restauração não apenas revitaliza o objeto, mas também revive momentos significativos na vida de seus clientes.

Assim, a prática de restaurar não se limita a uma preferência estética ou econômica, mas se torna um ato de preservação de memórias e emoções. Enquanto o mundo avança em direção ao novo, Wilson de Sousa Neto continua a mostrar que o velho, quando tratado com respeito e cuidado, pode ter um novo significado.