Uma extensa investigação da Polícia Federal entregue ao Supremo Tribunal Federal (STF) revelou a existência de um sofisticado mecanismo de cooptação no coração do órgão regulador do sistema financeiro brasileiro. De acordo com os relatórios policiais, o fundador e controlador do Banco Master, Daniel Vorcaro, manteve uma rotina de pagamentos recorrentes a Belline Santana, que ocupava o cargo de chefe de Supervisão Bancária do Banco Central. As transferências financeiras chegavam a atingir a cifra de R$ 760 mil por mês.

Atuação velada e afastamento de servidores

A documentação colhida pelos investigadores indica que Santana constava em uma relação restrita de interlocutores do banqueiro. Ao lado do também servidor Paulo Sérgio Neves de Souza, ele prestava uma espécie de consultoria informal para favorecer os interesses do Banco Master. O agravante do cenário reside no fato de que ambos pertenciam justamente à estrutura encarregada de fiscalizar e supervisionar as operações da própria instituição financeira. Diante da gravidade dos indícios, a cúpula da autarquia determinou o afastamento imediato dos dois funcionários.

A estrutura do contrato de fachada

O fluxo financeiro entre o banqueiro e o agente público era camuflado por meio de empresas intermediárias e prestação de serviços fictícios. Em outubro de 2023, o operador financeiro e cunhado de Vorcaro, Fabiano Zettel, organizou um contrato formal via Varajo Consultores, empresa gerida por Leonardo Palhares.

A justificativa formal apresentada nos papéis era a elaboração de um suposto projeto social focado no ingresso de jovens no mercado de capitais. Contudo, mensagens interceptadas pela Polícia Federal mostram o teor irônico das conversas entre os envolvidos ao celebrarem o acordo. Segundo os peritos federais, as tratativas deixam evidente que o instrumento contratual servia apenas como cobertura jurídica para disfarçar o pagamento de propina.

Rastreamento do dinheiro e rotina de pagamentos

Os dados analisados demonstram uma vigilância constante do grupo para evitar a exposição do Banco Master. O próprio Vorcaro orientava os executivos a não utilizarem contas vinculadas diretamente à instituição ou às suas empresas pessoais para realizar os repasses.

  • Outubro de 2023: Início das transferências sob a justificativa do contrato de consultoria social.
  • Outubro de 2024: Registro de repasses diretos que alcançaram R$ 760 mil intermediados pela consultoria.
  • Ano de 2025: Planilhas apreendidas indicam a continuidade do esquema com aportes mensais variando entre R$ 500 mil e R$ 750 mil.

Retirada do sigilo pelo Supremo Tribunal Federal

A exposição detalhada das transações financeiras ocorreu após o ministro André Mendonça atender a um pedido formulado pelo presidente da Corte, ministro Edson Fachin, e retirar o segredo de justiça sobre trechos do inquérito. A queda do sigilo traz à tona um dos maiores escândalos de potencial interferência privada na fiscalização bancária do país, abrindo margem para novos desdobramentos na esfera penal e administrativa.