O Cenário Atual do Cinema e o Etarismo
A indústria cinematográfica tem se mostrado um espaço complexo para mulheres com mais de 60 anos. Embora filmes recentes como Tudo em Todo Lugar ao Mesmo Tempo (2022), A Substância (2024) e Segredo Oscuro (2026) tenham contribuído para um debate mais amplo sobre a representação feminina, uma nova pesquisa aponta que as protagonistas nessa faixa etária continuam sendo uma exceção.
Resultados da Pesquisa
Um estudo realizado pelo Centre for Aging Better, um respeitado instituto britânico, revela que é cinco vezes mais comum encontrar um filme com um cachorro falante como protagonista do que uma mulher acima dos 60 anos. A análise abrangeu as 100 maiores bilheteiras entre 2023 e 2025, identificando que apenas cinco dessas produções contavam com mulheres nessa faixa etária como protagonistas, em comparação com seis filmes estrelados por um ator chamado Chris.
Campanha Age Without Limits
A pesquisa faz parte da campanha Age Without Limits, liderada pela atriz vencedora do Oscar, Emma Thompson. A iniciativa visa ressaltar a importância de dar visibilidade a mulheres mais velhas tanto na frente quanto atrás das câmeras. “Queremos mais narrativas que abordem o envelhecimento feminino. Mulheres mais velhas não precisam de permissão para existir na tela. Elas são parte do mundo e o cinema deve refletir isso”, declara Thompson.
Impactos na Representatividade
Para a professora de cinema Dani Balbi, doutora em dramaturgia pela UFRJ, a pesquisa evidencia a necessidade de um avanço significativo na diversidade de histórias e profissionais dentro da indústria. “Mulheres não brancas e aquelas que não se encaixam nos padrões tradicionais de gênero são frequentemente excluídas. Isso não só limita o tempo de tela de atrizes mais velhas, mas também molda a percepção do público sobre o que significa ser mulher na sociedade”, comenta Balbi.
Percepção do Público
Os dados da pesquisa mostram que um terço do público acredita que há uma escassez de filmes com protagonistas femininas acima de 60 anos. Em contrapartida, apenas 3% consideram que este tipo de filme é excessivo. Quando o foco é direcionado para homens acima dessa idade, a percepção se altera, com 20% do público achando que há poucos filmes protagonizados por eles.
Consequências do Etarismo
A falta de representatividade de mulheres mais velhas no cinema não afeta apenas a indústria, mas também a autoestima e o reconhecimento social dessas mulheres. A Dra. Carole Easton, diretora executiva do Centre for Aging Better, destaca que um em cada cinco frequentadores de cinema no Reino Unido tem 55 anos ou mais, e que esta demografia investe centenas de milhões de libras por ano em entretenimento. “A discrepância entre a presença de mulheres mais velhas nas telas e a proporção desse público é, de fato, insultante”, afirma Easton.
A especialista em saúde feminina Priscilla Guerra complementa que a ausência de mulheres acima de 60 anos em papéis principais transmite uma mensagem sutil, mas poderosa, de que suas histórias e contribuições não são valorizadas. “Essa invisibilidade atinge a autoestima dessas mulheres, especialmente em uma fase da vida onde elas possuem mais experiência e sabedoria”, pontua Guerra.
Conclusão
A representatividade de mulheres com mais de 60 anos no cinema é uma questão crucial que transcende a simples presença em cena. É um reflexo do reconhecimento e da dignidade que essas mulheres merecem na sociedade. A indústria precisa evoluir e incluir narrativas que celebrem a riqueza das histórias femininas em todas as idades.




