Relatos de medo e insegurança antes da tragédia

Antônio Vinícius Lopes Gritzbach, um corretor de imóveis assassinado em novembro no Aeroporto Internacional de São Paulo, expressou à equipe do Ministério Público de São Paulo (MPSP) seu estado de medo e insegurança após ser acusado de lavagem de dinheiro para o Primeiro Comando da Capital (PCC). Ele relatou episódios de transtorno psicológico e uma constante sensação de ameaça, tanto por parte da facção criminosa quanto de policiais civis supostamente corruptos.

Em um vídeo inédito, que foi divulgado pelo Metrópoles, Gritzbach participou de uma reunião com membros do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) durante as discussões sobre sua possível delação premiada. Ele deixou claro que seu objetivo não era transformar a colaboração em uma negociação, mas sim buscar a recuperação de sua honra e segurança. “Eu queria meu nome, eu queria minha honra, eu queria minha segurança”, enfatizou o corretor.

Pressões e ameaças

Gritzbach descreveu momentos críticos de sua vida, incluindo um sequestro em janeiro de 2022, no qual foi levado a um tribunal do crime do PCC. Durante essa audiência paralela, ele foi pressionado por criminosos a explicar contratos imobiliários que, segundo eles, estavam associados a membros da facção. Apesar das acusações, Gritzbach negou qualquer envolvimento financeiro com as transações e se sentiu pressionado tanto por membros do PCC quanto por policiais civis, que, segundo ele, tentaram extorqui-lo durante a investigação do Departamento de Homicídios e de Proteção à Pessoa (DHPP).

Extorsão e corrupção policial

Em conversas com o Gaeco, Gritzbach mencionou que policiais civis teriam solicitado entre R$ 30 milhões e R$ 40 milhões para ajudar a amenizar sua situação nas investigações sobre os assassinatos de dois membros do PCC. Além disso, ele denunciou que agentes da lei ficaram com bens de sua propriedade, como um sítio localizado em Biritiba Mirim e relógios de luxo, que foram apreendidos sem a devida documentação.

O trágico desfecho

Após ter sua colaboração homologada pela Justiça em abril de 2024, Gritzbach foi assassinado em novembro do mesmo ano, em um dos locais mais movimentados do Brasil. Ele havia se mostrado preocupado com sua proteção e recusou a proposta de ser incluído no programa de proteção a vítimas e testemunhas, o Provita, afirmando que o modelo não se adequava à sua realidade. Gritzbach insistiu que necessitava de recursos para garantir sua segurança, uma vez que não confiava na capacidade do Estado para protegê-lo.

Durante sua última conversa com os promotores, Gritzbach também mencionou uma tentativa de homicídio que sofreu na véspera de Natal de 2023, quando balas foram disparadas em direção ao seu apartamento, embora ninguém tenha se ferido. Ele expressou sua frustração ao afirmar que a violência poderia facilmente atingir sua família.

Limbo jurídico e futuro incerto

Gritzbach mostrou-se angustiado com as acusações que pesavam sobre ele, relacionadas ao assassinato de Cara Preta e Sem Sangue, afirmando que isso o deixava em um “limbo jurídico”. Apesar de sua delação se concentrar em corrupção policial e lavagem de dinheiro, ele se sentia inseguro quanto à sua situação legal. As promotorias, por sua vez, não puderam intervir diretamente nas investigações do homicídio, mas disseram que sua colaboração e as investigações em andamento poderiam ajudar a esclarecer sua posição.

Após meses de tensões e lutas contra a corrupção, a vida de Gritzbach chegou a um fim trágico, deixando no ar questionamentos sobre a segurança de delatores e a integridade das forças de segurança pública no Brasil.