Dona Francisquinha Castelo Branco da Costa Gomes, mais conhecida como Tia Chica, é uma figura emblemática no Xingu, onde sua história e vivência se entrelaçam com a cultura local. Embora não resida na cidade de Altamira, ela mantém um diálogo constante com suas memórias. Em suas palavras, evoca a saudade de tempos passados, questionando: “Onde estão teus pescadores chegando no cair da tarde, Altamira?”

Natural do Ceará, Tia Chica chegou ao Xingu em 1926, fugindo das dificuldades de sua terra natal. Com 24 filhos e 72 netos, sua vida é marcada por desafios e superações, sendo uma verdadeira crônica viva da história brasileira. Sua trajetória é uma epopeia que reflete as transformações sociais e culturais ao longo das décadas.

Ela nos conta, a bordo de um voo entre Teresina e Brasília, sobre sua vida repleta de aventuras e desventuras. Casou-se duas vezes, a primeira por imposição familiar, e a segunda com Anfrísio, um homem forte e severo, com quem compartilhou a vida até sua morte. Tia Chica revela que, embora tenha enfrentado a dor da perda, a vida ao lado dele foi repleta de amor e aprendizado.

“Marido é hóspede de luxo”, ela ensina às filhas, ressaltando a importância do respeito e do carinho no casamento. Sua relação com Anfrísio, marcada por uma cumplicidade única, é uma das muitas histórias que compõem o mosaico de sua vida. Ela lembra com carinho de momentos em que ele, à sua maneira, se envolvia com a cultura local, interagindo com as comunidades indígenas e a natureza ao redor.

Tia Chica também fala sobre a insegurança que sentia diante da vida selvagem, especialmente em relação às onças, mas nunca teve medo das dificuldades que a vida lhe impôs. A presença de índios e a constante luta contra os mosquitos transformaram a vida no sertão em uma verdadeira aventura. Mesmo com a modernização, como a chegada de aviões e campos de pouso, seu coração pertence às lembranças da simplicidade da vida no campo.

Com um olhar nostálgico, Tia Chica reflete sobre os ciclos econômicos que moldaram sua história, incluindo a decadência do monopólio da borracha, que trouxe dificuldades e recomeços. Sua resiliência é uma prova de que, mesmo diante das adversidades, é possível encontrar forças para recomeçar. Em uma de suas passagens mais tocantes, ela recorda de um filho aviador, que dançava nos céus com seu teco-teco, trazendo uma alegria passageira em meio às incertezas da vida.

Por meio de suas memórias, Tia Chica representa o espírito de luta e a riqueza cultural do Brasil. Sua narrativa vai além de meras recordações; é um convite à reflexão sobre a importância de valorizar as histórias que, como a dela, moldam a identidade de uma nação. A voz de Dona Francisquinha ecoa entre as águas do Xingu, lembrando-nos de que, enquanto existirem mulheres como ela, as tradições e histórias brasileiras continuarão a florescer.

Assim, ao ouvir Tia Chica, somos transportados para um Brasil que, apesar das mudanças, se mantém fiel às suas raízes. Que essa memória viva permaneça conosco, e que suas histórias inspirem novas gerações a valorizar a diversidade e a riqueza da cultura brasileira.