Funk e a Luta pela Identidade Cultural

O ritmo que embala as comunidades brasileiras desde a década de 1970, o funk, continua a desempenhar um papel vital na cultura nacional, mesmo diante de tentativas de cerceamento. Neste domingo, 12 de julho, o país comemora o Dia Nacional do Funk, instituído por lei em 2024. Apesar da festividade, o gênero vê suas manifestações ameaçadas por um aumento de propostas legislativas que buscam restringir a sua expressão.

O funk, que conquistou uma legião de fãs ao longo das últimas duas décadas, é alvo de uma série de iniciativas que visam proibir bailes e a performance de artistas. Um levantamento realizado pela Iniciativa Direito à Memória e Justiça Racial revelou que, apenas no primeiro semestre de 2025, foram apresentados 63 projetos legislativos relacionados ao tema, representando quase 50% do total protocolado desde 2002.

Propostas Controversas e o Estigma do Gênero

Entre as propostas de destaque está o Projeto de Lei Anti-Oruam, de autoria da vereadora Amanda Vettorazzo (União Brasil), que busca proibir a contratação de shows que façam apologia ao crime ou ao uso de drogas, uma associação que a parlamentar frequentemente faz ao funk. Essa percepção negativa, no entanto, ignora a diversidade do gênero, que não se resume apenas às letras explícitas sobre sexo.

Embora críticos apontem a presença da chamada “putaria” como um dos principais problemas do funk, artistas e especialistas ressaltam que o gênero também abrange vertentes como o funk consciente e o melody. Tati Quebra Barraco, uma das pioneiras do funk, afirma que a música é uma forma de retratar a realidade das comunidades, e não deve ser reduzida a uma única narrativa negativa.

O Crescimento do Funk em um Cenário Adverso

Curiosamente, apesar das tentativas de deslegitimação, o funk manteve-se em ascensão. Em 2025, foi o gênero que mais cresceu no Spotify globalmente, registrando um aumento de 36%. Essa contradição entre a rejeição e a popularidade do funk reflete padrões históricos de discriminação cultural enfrentados por manifestações de origem africana e periférica, semelhante ao que ocorreu com o samba e a capoeira.

Para Thiagson, doutor em musicologia, a resistência do funk é um reflexo do racismo estrutural que ainda permeia a sociedade. A forma como o gênero é recebido é frequentemente influenciada por preconceitos sociais, que são mais severos em relação a artistas de comunidades marginalizadas.

A Perspectiva dos Artistas e a Resistência Cultural

Artistas como Kevin o Chris e Anitta defendem que o funk é uma expressão legítima da cultura popular e que sua mensagem vai além do que é comumente interpretado. Eles argumentam que muitos gêneros musicais também tratam de temas sexuais, mas o funk é estigmatizado de maneira desproporcional.

A cineasta Ana Rieper, responsável pelo documentário “Massa Funkeira”, mostra como o funk é uma expressão de resistência cultural, refletindo não apenas o desejo, mas também a luta por reconhecimento e espaço na sociedade. Para ela, as iniciativas restritivas são uma resposta ao poder que o funk conquistou ao longo dos anos.

Conclusão: O Futuro do Funk e a Luta pela Aceitação

Enquanto o funk continua a ser um símbolo da resistência e expressão artística das periferias, a luta por seu reconhecimento e aceitação é longe de acabar. A história do gênero é marcada por desafios, mas também por uma resiliência que assegura seu lugar na cultura brasileira.