FIFA e a Politização do Futebol

Quando um evento esportivo de grande magnitude como a Copa do Mundo se inicia, todas as atenções se voltam para ele. Contudo, essa competição, que é a mais importante do futebol global, também tem sido utilizada como um palco político por governos que desejam transformar o amor pelo esporte em um símbolo de legitimidade, projeção internacional e construção de narrativas de poder nacional.

A FIFA, a entidade máxima do futebol, tem um histórico de estreitas relações com regimes autoritários, frequentemente ignorando denúncias de violação de direitos humanos e repressão política. Desde a Itália sob Benito Mussolini, em 1934, passando pela Argentina durante a ditadura militar de 1978, até a Rússia de Vladimir Putin e o Catar, a FIFA tem se mantido próxima a líderes controversos.

Futebol como Ferramenta de Propaganda

Antes mesmo da criação da Copa do Mundo, o futebol já era mobilizado por governos para fortalecer identidades nacionais e projetar uma imagem de estabilidade no cenário internacional. Hoje, essa estratégia se intensificou, especialmente entre regimes autoritários, que enxergam competições de grande porte como oportunidades de propaganda e de soft power.

Um exemplo clássico ocorreu em 1934, na Itália fascista, onde Mussolini usou a Copa do Mundo para promover seu regime. O governo investiu pesadamente na competição, transformando-a em uma ferramenta de glorificação do fascismo. Relatos indicam que a FIFA, sob a liderança de Jules Rimet, sentiu que o torneio foi mais uma realização do governo italiano do que da própria entidade esportiva.

Contrastes na Argentina de 1978

A Copa de 1978, realizada na Argentina, também é um exemplo notório de como o futebol e a política se entrelaçam. Originalmente, o torneio foi atribuído a um governo democrático, mas a chegada de uma ditadura militar em 1976 levou a uma reinterpretação do evento. Enquanto o regime torturava e desaparecia milhares de cidadãos, a Copa serviu para promover uma imagem de normalidade. Apesar das pressões internacionais para boicotar o torneio, a FIFA decidiu prosseguir com a competição.

Os relatos da época mostram um forte contraste entre a euforia dos estádios e a brutalidade da repressão nas ruas. O Estádio Monumental, que sediou a final, ficava a poucos quilômetros de centros de tortura, o que intensificou as críticas à FIFA e à sua decisão de manter o evento.

O Legado da Copa na Rússia e no Catar

As edições mais recentes da Copa do Mundo também não estão isentas de controvérsias. Em 2018, a FIFA organizou o torneio na Rússia, um país criticado por sua postura repressiva sob Putin. O presidente da FIFA, Gianni Infantino, elogiou a Rússia e descreveu a edição como a melhor de todas, mesmo diante de sérias alegações sobre violação de direitos humanos.

Por sua vez, a Copa realizada no Catar em 2022 trouxe à tona questões sobre as condições de trabalho dos migrantes e as restrições à liberdade de expressão. A FIFA, ao invés de ser um agente de mudança, muitas vezes se limitou a reprimir manifestações de apoio à diversidade, como a braçadeira “One Love”.

A Copa de 2026 e Influência Norte-Americana

A próxima edição, marcada para 2026, que será realizada em sua maior parte nos Estados Unidos, despertou novas preocupações. A proximidade entre Infantino e o ex-presidente Donald Trump levantou questões sobre a influência política nos bastidores do evento. A FIFA teve que se adaptar às rigorosas políticas migratórias dos EUA, o que resultou em incidentes como a deportação de um árbitro somali após horas de interrogatório.

Além disso, as tensões diplomáticas entre os Estados Unidos e o Irã impactaram a logística da seleção iraniana, obrigando-a a se estabelecer no México. O evento também introduziu características do mercado esportivo norte-americano, tornando a edição de 2026 a mais cara da história para os torcedores.