A diplomacia comercial entre Brasília e Pequim alcançou um novo marco com a autorização de quatro novas unidades frigoríficas brasileiras para o envio de proteínas animais ao mercado chinês. A decisão, confirmada após uma rigorosa auditoria sanitária presencial realizada por inspetores asiáticos, eleva para 150 o número total de plantas nacionais credenciadas a abastecer a maior economia da Ásia.

Expansão e diversificação industrial

A nova lista contempla instalações estrategicamente distribuídas pelo território nacional, divididas igualmente entre os segmentos de bovinos e aves. No setor bovino, foram habilitadas a unidade da Supremo Carnes, localizada em Carlos Chagas (MG), e a planta da Masterboi, em Canhotinho (PE). Já o segmento avícola ganhou o aval para a Avivar Alimentos, sediada em São Sebastião do Oeste (MG), e para a Cooperativa Dália Alimentos, de Arroio do Meio (RS).

O anúncio ocorreu logo após o término da missão técnica chinesa, que inspecionou presencialmente 17 complexos fabris no país — sendo 11 voltados à carne bovina, três à suína e três ao setor de frangos. A chancela chinesa reforça o rigor do sistema de controle sanitário brasileiro em um momento de consolidação de parcerias estratégicas.

Desafio das cotas e sobretaxas tarifárias

Apesar da importante chancela sanitária, os produtores de carne bovina recém-aprovados enfrentam um gargalo comercial imediato. Pequim oficializou que o Brasil já atingiu o volume limite estipulado na cota anual de importação de proteína bovina para o ano corrente, patamar que o setor produtivo nacional já havia alcançado no mês de agosto.

Com o esgotamento do teto preferencial, os embarques adicionais que excederem o limite pré-estabelecido estarão sujeitos a uma tarifa protecionista. Haverá a cobrança de uma sobretaxa de 55% combinada à alíquota base de 12%. Diante desse cenário, a tendência é que as duas plantas bovinas recém-habilitadas retenham seus embarques até o início do próximo ano fiscal, garantindo assim a incidência do imposto padrão.

Para contornar esse impasse, o governo brasileiro articula uma alternativa diplomática inédita: a cessão do excedente de cotas não utilizadas por países parceiros. O Uruguai já sinalizou concordância em transferir parte de seu limite operacional ao Brasil, mas a medida ainda depende do aval formal do governo chinês, que até o momento não emitiu posicionamento oficial sobre o arranjo.

Subprodutos e projeções para o mercado europeu

Paralelamente às habilitações, o Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA) comemora a assinatura de um protocolo sanitário crucial para a exportação de miúdos suínos — incluindo fígado, coração, rins, estômago e ossos. A estimativa das entidades setoriais é de que a abertura desse nicho gere uma receita adicional próxima a US$ 100 milhões (cerca de R$ 520 milhões) por ano.

O titular da pasta da Agricultura, André de Paula, expressou otimismo quanto a novas concessões de licenças ainda este ano, com destaque para o avanço iminente na liberação de subprodutos bovinos. Contudo, em relação ao mercado da União Europeia, que interrompeu temporariamente as compras de carne bovina brasileira, o cenário exige maior paciência comercial: o ministro projeta que a retomada plena das exportações para o bloco europeu deverá ocorrer em um prazo estimado de até dois anos.