A busca por uma inserção soberana e competitiva do Brasil na economia global exige equacionar um complexo dilema: como proteger o parque fabril doméstico contra práticas predatórias internacionais sem desestimular a inovação e o ganho de produtividade? Essa foi a reflexão central apresentada pelo ex-ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior e ex-presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Armando Monteiro, durante sua participação no Congresso Aço Brasil.

Para o especialista, a aplicação de instrumentos de defesa comercial é indispensável no cenário atual, mas deve ser encarada de maneira pragmática. Segundo ele, compensar as assimetrias competitivas não equivale a conceder privilégios perpétuos a setores ineficientes, mas sim a neutralizar os pesados encargos que incidem sobre o produtor nacional.

O impacto do Custo Brasil nas assimetrias de mercado

Durante sua análise, Monteiro destacou que o ecossistema produtivo brasileiro carrega um fardo sistêmico conhecido como Custo Brasil — expressão que engloba ineficiências infraestruturais, burocráticas, logísticas e tributárias. Na visão do ex-ministro, impor regras de livre comércio irrestrito a players expostos a essas desvantagens estruturais cria um ambiente de concorrência desleal.

Entre os fatores que agravam essa equação, citaram-se os recentes retrabalhos nas rotas do comércio internacional. A imposição de barreiras tarifárias rigorosas por grandes potências globais, como os Estados Unidos, tem gerado um redirecionamento de excedentes de produção de commodities e bens manufaturados para mercados com menor grau de proteção, desencadeando surtos imprevistos de importação no país.

Flexibilidade e calibragem permanente nas barreiras comerciais

Para mitigar esses impactos sem paralisar a agenda de modernização industrial, a estratégia proposta por Armando Monteiro envolve a constante reavaliação dos mecanismos de salvaguarda. A premissa é que o rigor da proteção tarifária acompanhe, de forma dinâmica, os progressos ou retrocessos na redução do próprio Custo Brasil.

A resposta regulatória da política externa comercial, portanto, deve ser calibrada periodicamente. O objetivo é evitar que a indústria brasileira fique desamparada perante manobras agressivas do mercado externo, ao mesmo tempo em que se assegura a manutenção de incentivos para que os setores locais busquem padrões mundiais de competitividade.

Um debate crucial para a indústria pesada

Com vasta trajetória na vida pública e empresarial — tendo atuado como deputado federal, senador por Pernambuco e presidente do sistema CNI —, Monteiro reforçou o diagnóstico durante o maior fórum da siderurgia nacional. O Congresso Aço Brasil, realizado em São Paulo, reuniu líderes corporativos, economistas e tomadores de decisão para mapear os rumos e desafios da indústria de base do país diante da nova geopolítica econômica.