O reality show protagonizado por Viih Tube e Eliezer, que retrata o cotidiano do casal e de sua equipe, está sob análise do Ministério Público do Trabalho (MPT). A investigação foi instaurada para avaliar a legalidade das relações trabalhistas no contexto da produção do programa.
A decisão do MPT de abrir um procedimento investigativo reacende a discussão sobre os limites do entretenimento e a situação dos trabalhadores envolvidos. Embora alguns funcionários tenham se manifestado nas redes sociais a favor do projeto, alegando participação voluntária, a questão jurídica ainda está longe de ser resolvida.
A advogada trabalhista Silvana Campos, em conversa com a coluna Fábia Oliveira, enfatizou que a abertura do procedimento não é uma condenação. “O MPT encontrou indícios suficientes para investigar se as normas trabalhistas foram violadas. Este é um processo inicial, onde o foco é coletar documentos, ouvir as partes envolvidas e analisar o contexto dos fatos antes de qualquer conclusão”, comentou.
Durante a investigação, serão examinados diversos aspectos, incluindo possíveis constrangimentos enfrentados pelos trabalhadores, a exposição de suas imagens, respeito à dignidade humana, e condições de trabalho, como horas extras e desvio de função. Um ponto central da análise será o consentimento dos empregados para participar do reality.
Silvana Campos destacou que o apoio manifestado pelos funcionários não elimina a responsabilidade dos empregadores. “Essas manifestações devem ser consideradas, mas não garantem que não haja irregularidades. É crucial verificar se esse apoio foi genuíno ou se havia medo de represálias”, ressaltou.
A advogada também lembrou que a subordinação é um dos pilares da relação empregado-empregador e que isso pode influenciar a liberdade de escolha do trabalhador. “Muitos empregados podem temer recusar uma solicitação, temendo consequências negativas em sua carreira. Por isso, a Justiça analisa se o trabalhador tinha liberdade real para dizer não, sem prejuízos”, afirmou.
Outro aspecto que o MPT deve observar é a rotina dos funcionários durante as gravações. Se a produção afetou a jornada de trabalho, alterando horários ou exigindo funções diferentes das contratadas, isso pode gerar discussões sobre horas extras e descumprimento de normas trabalhistas.
Além disso, a advogada alertou que situações de constrangimento podem ser consideradas como violação dos direitos trabalhistas. “O assédio moral não se limita a ofensas verbais; expor um trabalhador ao ridículo ou à humilhação pode configurar uma violação da dignidade”, afirmou.
Mesmo a oferta de prêmios em dinheiro a participantes não exclui a necessidade de um ambiente de trabalho saudável. “O incentivo financeiro não isenta o empregador de garantir um ambiente respeitoso e livre de constrangimentos”, pontuou.
Se o MPT concluir que existem irregularidades, as repercussões podem ser severas. A advogada explicou que o Ministério Público pode propor um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) para corrigir as práticas identificadas. Na ausência de um acordo, podem ser tomadas medidas legais, incluindo uma Ação Civil Pública para reparação de danos coletivos.
Importante ressaltar que a investigação coletiva não impede que trabalhadores busquem compensação individual. “Qualquer empregado que se sinta prejudicado pode mover uma ação própria na Justiça do Trabalho a qualquer momento”, destacou Silvana.
Por fim, a retirada dos episódios do reality show não encerra a investigação. “A exclusão do conteúdo pode ser vista como uma atitude colaborativa, mas não impede que o MPT continue a apurar possíveis violações ocorridas”, concluiu a especialista.




