O ambiente hospitalar, que deveria ser um espaço temporário de recuperação, transformou-se em uma prisão involuntária para muitos pacientes no Distrito Federal. Entre 2021 e 2025, 217 pessoas permaneceram internadas mesmo após receberem alta médica, com algumas aguardando até nove meses para conseguir deixar a unidade. Este fenômeno, denominado internação social, reflete uma complexa intersecção de saúde e vulnerabilidade social.
Dados da Secretaria de Saúde do Distrito Federal (SES-DF) revelam que a maioria dos pacientes nesta situação é composta por idosos dependentes e pessoas com deficiência. Também estão incluídos aqueles sem família, moradia ou rede de apoio que facilite o retorno ao lar. A realidade se agrava ano após ano; em 2021, o tempo médio de permanência após a alta era de 90 dias, enquanto em 2024 saltou para 270 dias, o que representa um aumento alarmante.
Motivos por trás da internação social
Os motivos que levam a essa condição são variados e complexos. Abandono familiar, fragilidade nas relações sociais, falta de moradia adequada e situações de vulnerabilidade, como a de pessoas em situação de rua, são algumas das razões frequentemente citadas. Um caso emblemático é o de Isabela*, uma adolescente com transtorno do espectro autista, que completou um ano de internação no Hospital Municipal do Jardim Ingá, em Luziânia, após a morte de sua avó, que era sua cuidadora.
Isabela, que foi deixada por sua mãe em um centro de saúde e posteriormente enviada ao hospital, exemplifica como a internação social pode afetar pessoas em diferentes contextos. Apesar do carinho e dos vínculos formados com a equipe do hospital, a unidade não foi projetada para servir como lar permanente, e esforços estão sendo feitos para encaminhá-la a uma instituição adequada.
A complexidade da alta hospitalar
A assistente social Erci Ribeiro, com experiência no Hospital Regional de Ceilândia, destaca que a alta hospitalar envolve mais do que a avaliação médica tradicional. Segundo ela, existem duas formas de alta: a médica, que se refere à condição de saúde, e a social, que considera aspectos psicossociais. A alta social é crucial para garantir que o paciente tenha condições adequadas para continuar o tratamento fora do hospital.
Erci ressalta que muitos pacientes que chegam ao DF podem ter perdido seus vínculos familiares ao longo do tempo, o que dificulta a alta. “A busca por familiares é um aspecto essencial. No entanto, mesmo quando a família existe, pode não haver condições de oferecer a assistência necessária”, explica.
Impactos da internação prolongada
Apesar da assistência hospitalar, a permanência prolongada pode ter consequências negativas para os pacientes. O hospital é um ambiente associado a dor e sofrimento, e a falta de um lar pode comprometer a recuperação emocional e social. "O fortalecimento de vínculos comunitários é fundamental,” afirma Erci. “É essencial garantir que cada paciente tenha um lugar onde se sinta pertencente e acolhido.”
Medidas para enfrentar a situação
Em resposta a essa problemática, a SES-DF iniciou a implementação do Guia Intersetorial para Integração dos Serviços de Saúde e Proteção Social às Pessoas em Situação de Rua. Essa iniciativa visa estabelecer uma rede de apoio para os grupos mais vulneráveis, facilitando o seu retorno ao convívio familiar e social.
É evidente que a situação dos pacientes em internação social exige uma abordagem multifacetada, que envolva não apenas os serviços de saúde, mas também a assistência social e a promoção de políticas públicas que garantam a dignidade e o suporte necessário a essas pessoas.
* Nome fictício utilizado para proteger a identidade da paciente, em conformidade com o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA).




