Reflexões sobre o impeachment de Dilma Rousseff
No dia 31 de agosto, marca-se uma década desde a cassação do mandato da ex-presidente Dilma Rousseff (PT) pelo Senado. O atual presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) continua a se referir ao impeachment como um "golpe" e, surpreendentemente, está apoiando, nas eleições deste ano, 11 candidatos que votaram a favor de sua destituição em 2016.
Entre os políticos que receberam apoio do PT estão candidatos ao Senado e à Câmara, além de figuras que fazem parte das articulações eleitorais do partido em diversos estados. A lista inclui nomes proeminentes como Renan Calheiros (MDB-AL), Eduardo Braga (MDB-AM), Omar Aziz (PSD-AM), Veneziano Vital do Rêgo (MDB-PB) e Eliziane Gama (PT-MA).
Alianças em tempos de eleições
Essas alianças revelam como o PT está disposto a ultrapassar barreiras ideológicas que antes eram evidentes no contexto do impeachment. Alguns dos políticos que anteriormente apoiaram a saída de Dilma agora fazem parte da base de sustentação do governo Lula.
Renan Calheiros, então presidente do Senado, foi um dos que votou pela condenação de Dilma e foi visto recentemente participando de eventos de campanha ao lado de Lula. Veneziano Vital do Rêgo, que busca a reeleição ao Senado, também votou pelo impeachment e recebeu o apoio de Lula em um vídeo divulgado nas redes sociais. Outro nome relevante é Pedro Paulo (PSD-RJ), que, após votar a favor do impeachment, esteve presente em um comício inaugural de Lula no Rio de Janeiro.
O processo de impeachment em detalhes
O impeachment de Dilma Rousseff foi marcado por três momentos cruciais. No dia 17 de abril de 2016, a Câmara dos Deputados autorizou a abertura do processo, com uma votação de 367 a 137, citando as chamadas “pedaladas fiscais” como justificativa. Em 12 de maio, o Senado aprovou a admissibilidade do processo, afastando Dilma de sua função e colocando Michel Temer como presidente interino.
Em 10 de agosto, o Senado aprovou o relatório final que recomendava o julgamento de Dilma, momento em que alguns senadores inicialmente reticentes, como Eduardo Braga e Jader Barbalho, mudaram sua posição e se alinharam a Temer, limitando as chances de reversão do processo. No dia 29 de agosto, Dilma se defendeu em um discurso no Congresso, qualificando o impeachment como um “golpe de Estado”. Por fim, em 31 de agosto de 2016, o Senado a declarou culpada, com uma votação de 61 a 20 votos, resultando em sua destituição definitiva.
Embora tenha sido afastada, Dilma não ficou inelegível e tentou retornar à política, concorrendo ao Senado por Minas Gerais em 2018, mas não obteve sucesso. Em 2023, foi nomeada presidenta do Novo Banco de Desenvolvimento, o “Banco do Brics”, com sede em Xangai, após indicação de Lula, e foi reeleita para mais cinco anos em 2025.
A instabilidade política após o impeachment
A destituição de Dilma Rousseff deu início a um período de intensa instabilidade política no Brasil. Michel Temer, que assumiu a presidência, finalizou seu mandato em 2018 com baixa popularidade e envolvimento em diversas denúncias de corrupção, das quais nunca foi condenado. Nas eleições de 2018, o Brasil elegeu Jair Bolsonaro (PL), cuja campanha foi fortemente baseada na rejeição ao PT e na luta contra a corrupção, simbolizada pela Operação Lava Jato.
Porém, em 2022, o cenário político começou a mudar novamente, com Lula, após a anulação de suas condenações pela Lava Jato, derrotando Bolsonaro no segundo turno, em uma das eleições mais acirradas desde a redemocratização, com uma margem de apenas dois pontos percentuais.




