Um volumoso conjunto de documentos sigilosos, recentemente tornados públicos por determinação do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), lançou luz sobre as engrenagens financeiras por trás de "Dark Horse", obra cinematográfica baseada na trajetória do ex-presidente Jair Bolsonaro. As apurações da Polícia Federal (PF), derivadas de desdobramentos ligados ao Banco Master, revelam a existência de um projeto orçado em US$ 24 milhões (aproximadamente R$ 134 milhões à época) e indícios de infrações penais graves no envio desses recursos para o exterior.

A arquitetura dos repasses internacionais

De acordo com os relatórios periciais elaborados pela PF a partir de dados extraídos do telefone celular de Daniel Vorcaro, criador do Banco Master, a captação de recursos seguiu um cronograma estruturado em 14 parcelas. O plano inicial previa duas quotas iniciais de US$ 2 milhões, seguidas por 12 aportes mensais de US$ 1,666 milhão. Sob o título provisório de "Capitão do Povo", o contrato de financiamento foi encaminhado a Vorcaro pelo publicitário Thiago Miranda Silva no final de 2024.

As análises financeiras confirmaram que, ao longo de 2025, a empresa Entre Investimentos e Participações efetuou sete transferências para a conta do Havengate Development Fund, localizado nos Estados Unidos, somando o montante de US$ 12,3 milhões (cerca de R$ 69 milhões). Essa movimentação bancária foi confirmada pelo próprio proprietário da empresa investidora, Antônio Carlos Freixo Júnior, em acordo de delação premiada homologado pela Suprema Corte.

Articulação política e registros em áudio

As investigações apontam que a gestão do fundo americano era conduzida por Paulo Calixto, profissional do direito ligado ao ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro, a quem a Polícia Federal atribui papel orientador na aplicação das somas. O inquérito destaca ainda a atuação direta do senador Flávio Bolsonaro na intermediação, cobrança e acompanhamento do fluxo financeiro.

Mensagens interceptadas pelos investigadores revelam um momento crítico em setembro de 2025, quando o parlamentar cobrou os repasses a Vorcaro alegando o risco de descumprimento contratual com o elenco e a direção da produção, que conta com o ator norte-americano Jim Caviezel e o cineasta Cyrus Nowrasteh. Em gravações posteriores, o senador expressou preocupação com os custos operacionais durante as filmagens.

Origem do fundo e desdobramentos jurídicos

O veículo utilizado para os recebimentos nos Estados Unidos, o Havengate Development Fund, havia sido constituído em 2020 para um projeto imobiliário no Texas atrelado a vistos de residência, mas que jamais se concretizou. O fundo permaneceu sem atividade até ser reativado especificamente para acolher as remessas da produção audiovisual.

Diante do quadro apresentado, a Polícia Federal identificou indícios de corrupção, organização criminosa, evasão de divisas e lavagem de capitais. Por sua vez, a defesa do senador Flávio Bolsonaro afirma categoricamente que o financiamento possui natureza estritamente privada, com regras de governança e fiscalização pelas autoridades financeiras norte-americanas, negando qualquer irregularidade no processo.