Incontinência urinária: um problema silencioso entre mulheres

A incontinência urinária é uma realidade preocupante para 56% das mulheres brasileiras com mais de 40 anos, conforme apontou um estudo recente da Ipsos, em colaboração com a Apsen. Apesar da alta prevalência, a maioria das afetadas não busca ajuda médica para tratar a condição.

O estudo, realizado entre junho e julho de 2023, ouviu 1.500 mulheres de diversas regiões do Brasil. Os dados indicam que 87% das participantes que relataram incontinência urinária nunca tiveram acesso a um tratamento específico. Essa realidade revela um silêncio persistente em torno do tema, que é frequentemente cercado de desinformação e barreiras no acesso ao diagnóstico.

A influência da incontinência urinária na vida cotidiana

A condição afeta significativamente a rotina das mulheres. Entre as entrevistadas, 52% admitiram que mudaram seus hábitos diários por conta do medo de acidentes. Essas mudanças incluem o uso de absorventes ou protetores e a escolha de lugares com banheiros próximos.

Cerca de um terço das participantes utiliza algum tipo de proteção no cotidiano e muitas evitam atividades físicas ou alteram seu modo de se vestir para minimizar os sintomas. Essa abordagem de esconder os problemas, em vez de buscar orientação médica, se reflete também na saúde emocional. Aproximadamente 30% das mulheres com incontinência urinária mista relataram sentimentos como ansiedade, estresse e vergonha, e um terço delas evitou discutir a questão até mesmo com pessoas próximas.

A psiquiatra e sexóloga Carmita Abdo, da Universidade de São Paulo (USP), ressalta que a incontinência urinária vai além do desconforto físico. "Quando uma condição limita atividades cotidianas, é essencial criar espaços onde as mulheres se sintam acolhidas e à vontade para buscar ajuda", afirma.

A dificuldade de abordar o tema na consulta médica

O tabu em torno da incontinência urinária também se estende às consultas médicas. Entre mulheres acima de 50 anos, 64% relataram dificuldades para mencionar o problema a profissionais de saúde, e mais da metade nunca foi indagada sobre escapes de urina durante atendimentos de rotina. Para a urologista Rebeka Cavalcanti, do Hospital dos Servidores do Estado, esse cenário revela uma falha na abordagem médica, destacando que muitas pacientes convivem com os sintomas por vários anos antes de buscar avaliação.

Desconhecimento e falta de tratamento

Apesar da crescente conscientização, a procura por tratamento ainda é baixa. O levantamento mostra que 58% das mulheres têm ciência de que a incontinência pode ser tratada, mas apenas 13% estão em acompanhamento médico. Além disso, muitas participantes não sabiam que existem diferentes tipos de incontinência ou que o urologista também atende mulheres.

A maioria reconhece a gravidade do problema, com 79% considerando a incontinência urinária uma condição de saúde que merece atenção. No entanto, o estigma, a falta de informação e a dificuldade de diálogo continuam a dificultar o acesso ao cuidado necessário.

Esses dados fazem parte da iniciativa Escape do Tabu, que visa aumentar a conscientização sobre a saúde urinária e facilitar o acesso a diagnósticos e tratamentos para mulheres que enfrentam essa condição.