As construções da Estação 14 Bis-Saracura, parte da nova Linha 6-Laranja do metrô de São Paulo, foram temporariamente suspensas devido a descobertas arqueológicas significativas na região do Bixiga, situado no coração da cidade. A concessionária responsável, Linha Uni, informa que aguarda instruções do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) para decidir os próximos passos sobre a continuidade das obras.

De acordo com um relatório enviado ao Iphan em julho, uma consultoria em arqueologia que monitora a construção identificou diversas estruturas, incluindo alicerces de alvenaria, pisos cimentícios e sistemas de drenagem. Além disso, foram encontrados artefatos que sugerem a presença de práticas religiosas de origem africana. Os vestígios localizados estão a cerca de 2,2 metros de profundidade e indicam a possível existência de um terreiro afro-brasileiro, junto a outros objetos relacionados à religiosidade local.

A Área 6, onde essas descobertas ocorreram, é parte de uma investigação maior que já havia revelado indícios de um quilombo do século XIX nas proximidades, conhecido como Quilombo Saracura. Em 2022, um sítio arqueológico relacionado a esse quilombo foi encontrado, o que levou à mudança do nome da estação de apenas 14 Bis para 14 Bis-Saracura. Além disso, a área havia abrigado a quadra da tradicional escola de samba Vai-Vai.

A concessionária Linha Uni destaca que a pausa nas obras é uma medida necessária para garantir a preservação dos achados. “Estamos seguindo rigorosamente as orientações do Iphan e mantemos um diálogo ativo com as autoridades e a comunidade local”, afirma a empresa em comunicado.

Movimentos sociais e ativistas culturais defendem a ideia de que a estação do metrô poderia ser transformada em um espaço museológico, similar ao que já existe em países como Grécia e Espanha, onde estações de metrô são integradas a museus arqueológicos.

A Linha 6-Laranja, que estava prevista para ser inaugurada em 2018, sofreu atrasos significativos. O governador Tarcísio de Freitas inaugurou recentemente o primeiro trecho da linha, que fará a conexão entre a zona norte e o centro da cidade de São Paulo, com investimentos que ultrapassam R$ 19 bilhões. As estações atualmente disponíveis operam em horários limitados, das 10h às 15h, durante dias úteis, com um intervalo médio de 19 minutos entre os trens.

Além disso, mais duas estações estão previstas para abertura ainda este ano, aumentando a cobertura da linha na capital paulista. O governo Tarcísio também tem utilizado a entrega de obras como um trunfo político, especialmente em um contexto eleitoral, já que busca a reeleição em outubro deste ano.

A história da Linha 6 é marcada por mudanças de gestão, sendo originalmente proposta em 2013 e tendo seu projeto paralisado em meio a escândalos de corrupção envolvendo as empresas contratadas para a construção. O projeto foi finalmente retomado em 2020, sob a administração do ex-governador João Doria, e agora, com o atual governo, a prioridade é concluir a primeira fase o mais rápido possível.

Como a situação das obras se desenrola, as descobertas arqueológicas ressaltam a rica herança cultural de São Paulo e a importância da preservação desses vestígios históricos.