Em uma deliberação que promete redefinir os padrões de administração do futebol sul-americano, o Conselho Deliberativo do Flamengo reúne-se nesta terça-feira, 15 de setembro de 2026, para votar uma ampla reforma estatutária. A proposta visa institucionalizar de forma definitiva o modelo de gestão técnica e profissional no clube, garantindo que a eficiência administrativa continue independente de eventuais trocas de comando político.

O pilar central da mudança é a separação rígida entre as instâncias de governança estratégica e os órgãos de execução operacional. Com faturamento anual que supera a marca de R$ 2 bilhões, a agremiação busca adequar sua engrenagem interna ao porte de uma grande corporação multimilionária, sem contudo abrir mão de sua identidade jurídica tradicional.

Divisão clara de papéis e novo Conselho Gestor

Caso seja aprovada, a nova estrutura estabelecerá uma Diretoria Profissional composta por executivos contratados sob critérios rigorosamente técnicos e remunerados a mercado. A condução do clube ficará sob responsabilidade de duas lideranças de topo:

  • Diretor-Geral: encarregado de toda a gestão corporativa e administrativa;
  • Diretor de Futebol: responsável direto pelo futebol profissional e pela formação nas categorias de base.

Para fiscalizar esse corpo executivo, a reformulação cria o Conselho Gestor (Coge). Esse órgão colegiado terá a missão de supervisionar estratégias, metas e indicadores de desempenho, além de analisar riscos e políticas de gestão de pessoas. Vale destacar que o Coge não atuará no dia a dia operacional, mas possuirá poder de orientação e deliberação sobre projetos estruturais.

Controles de governança e rigor ético

A minuta submetida aos conselheiros introduz mecanismos modernos de compliance. O texto exige a implementação de um planejamento orçamentário anual integrado a metas plurianuais de três e cinco anos. Além disso, torna obrigatória a criação de um Portal de Governança e Transparência para acesso público às finanças e atos administrativos do clube.

Para coibir conflitos de interesse, a proposta endurece as normas contra o nepotismo e impõe períodos de quarentena para associados que tenham exercido cargos eletivos antes de tentarem migrar para vagas remuneradas na Diretoria Profissional.

Modelo associativo preservado: o Flamengo não será SAF

Ao contrário de diversos clubes brasileiros que migraram para o formato de Sociedade Anônima do Futebol (SAF), a proposta mantém o Flamengo estritamente como uma associação civil sem fins lucrativos. O poder decisório final permanece concentrado nos sócios por meio do Conselho Deliberativo, que continuará como o órgão soberano para aprovar políticas institucionais e diretrizes macro.

Da mesma forma, o Conselho de Administração atuará na revisão prévia das diretrizes e o Conselho Fiscal prosseguirá com a auditagem econômico-financeira de maneira independente.

Origem e engajamento dos associados

O texto-base teve como ponto de partida o projeto "Profissionalismo", idealizado pelo presidente Luiz Eduardo Baptista (BAP). O documento final é resultado do trabalho da Comissão Permanente de Estatuto, que apreciou 15 blocos de emendas contendo 98 propostas enviadas pelos sócios — das quais aproximadamente três quartos foram incorporadas de forma integral ou parcial ao texto votado.