Início de uma Nova Era para as Baterias no Brasil

O Brasil está se preparando para realizar seu primeiro leilão de sistemas de armazenamento de energia em baterias, conhecido como BESS, marcado para dezembro de 2026. Essa iniciativa visa não apenas a contratação de sistemas, mas também a defesa de um conteúdo nacional significativo, conforme as diretrizes do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social).

A proposta é parte de uma estratégia abrangente de industrialização que busca desenvolver a produção local, começando pela montagem de equipamentos e avançando para a fabricação de módulos, células e insumos com maior valor tecnológico. A meta é que até 2031, o país possa fabricar componentes cruciais internamente, diminuindo assim a dependência de uma cadeia produtiva atualmente dominada pela China.

O Que São BESS?

Os sistemas de armazenamento de energia em baterias (BESS) são essenciais para a moderna infraestrutura elétrica. Eles funcionam como uma rede de corrente contínua, composta por células, módulos e packs, além de conter um sistema responsável por converter e devolver a energia para a rede elétrica, que inclui um inversor e um transformador. Este sistema completo ainda agrega software de controle, climatização, estrutura física, painéis, cabos e dispositivos de segurança contra incêndios.

Essas tecnologias têm o potencial de transformar o funcionamento do sistema elétrico no Brasil, atendendo principalmente à demanda dos geradores de energia, ao contrário do que ocorre tradicionalmente com os consumidores finais. Essa mudança é uma resposta ao fenômeno do curtailment, que ocorre quando há cortes obrigatórios na produção de energia nas usinas renováveis, especialmente em contextos de alta geração que não encontram demanda suficiente.

Detalhes da Nacionalização

De acordo com as normas estabelecidas pelo BNDES, os componentes dos sistemas são classificados entre estratégicos e auxiliares. Componentes estratégicos incluem o pack de baterias, o sistema de gerenciamento de energia (EMS), e o software de controle, enquanto itens como climatização e estrutura são considerados auxiliares.

A montagem final dos sistemas será obrigatoriamente realizada no Brasil, com empresas podendo combinar componentes nacionais e importados até 2027. O BNDES categoriza as baterias em diferentes níveis de conteúdo nacional, variando do BA.1, com menor nacionalização, ao BA.4, que representa o nível máximo. As exigências aumentarão progressivamente, permitindo que o Brasil avance de forma escalonada nas etapas de produção.

Desafios e Oportunidades no Caminho

A Absae (Associação Brasileira de Soluções de Armazenamento de Energia) salienta a importância do desenvolvimento da indústria nacional, embora também advirta sobre a necessidade de que as exigências não restrinjam o mercado antes que os fornecedores estejam prontos. O CEO da Absae, Fábio Monteiro Lima, citou a reserva de mercado de computadores como um exemplo de política que limitou a difusão tecnológica.

O Brasil enfrenta o desafio da dependência de tecnologias e insumos da China, que controla a maior parte da produção global de células de lítio. Entretanto, há uma expectativa positiva entre empresas nacionais, com pelo menos oito grupos investindo em soluções para o leilão, cada um com estratégias distintas, desde a montagem de packs até parcerias com fornecedores locais.

O potencial de crescimento no setor é imenso, especialmente considerando as amplas reservas de lítio e outros minerais críticos disponíveis no Brasil. A Absae acredita que o país pode se inserir na corrida global pela dominância dessa tecnologia, crucial para a eficiência do sistema elétrico no futuro.