Em um momento no qual os eventos climáticos extremos voltam a castigar o estado de São Paulo, a gestão orçamentária paulista para 2026 tomou um rumo oposto à urgência das ruas. A Lei Orçamentária Anual (LOA) reservou R$ 140,8 milhões para ações diretas de drenagem e contenção de enchentes — valor que representa uma retração drástica de 55% em comparação aos R$ 314,8 milhões alocados no exercício anterior.

Enxugamento orçamentário atinge pastas estratégicas

A tesourada na prevenção de desastres é reflexo da reorganização financeira promovida na Secretaria de Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística (Semil). A pasta registrou o maior decréscimo absoluto na administração estadual, encolhendo de R$ 10,9 bilhões para R$ 8,8 bilhões, uma perda equivalente a 18,46% da sua capacidade de investimento direto.

A contenção de despesas também alcançou a capacitação e pesquisa da Defesa Civil. As verbas destinadas ao treinamento, preparação e desenvolvimento técnico do órgão sofreram um contingenciamento de 27%, passando de R$ 1,1 milhão para R$ 871 mil. Embora o Executivo estadual possa suplementar esses aportes ou receber emendas parlamentares ao longo do ano, os números fixados no orçamento sinalizam uma clara mudança de prioridades orçamentárias.

Balanço humano: mortes e estragos nas cidades

A escassez de recursos preventivos coincide com o avanço de tempestades avassaladoras pelo território paulista. Apenas nos últimos dias, o estado contabilizou mais de meio cento de ocorrências graves associadas ao volume pluviométrico, culminando em tragédias pessoais e patrimoniais:

  • Vítimas fatais: Três mortes confirmadas nos municípios de Jandira, Itaquaquecetuba e São Bernardo do Campo, causadas por enxurradas e deslizamentos de terra.
  • Desaparecimentos: Um homem continuava sendo procurado pelas equipes de resgate na Grande São Paulo após ser levado pelas águas.
  • Deslocados e desabrigados: O balanço oficial aponta 313 pessoas que perderam suas casas (desabrigadas) e 1.509 forçadas a deixar temporariamente suas residências (desalojadas).

Regiões como o Vale do Ribeira sofreram impactos severos. O transbordamento do Rio Ribeira de Iguape deixou a cidade de Eldorado parcialmente coberta pela água, forçando a decretação de estado de emergência — medida estendida posteriormente a municípios como Registro, Ribeira, Iporanga, Barra do Turvo e Piracaia. Em Ribeira, a situação mostrou-se crítica, com 130 pessoas acolhidas em abrigos públicos.

O posicionamento do governo e a aposta em parcerias

Frente às críticas sobre o enxugamento de verbas diretas, o Palácio dos Bandeirantes argumenta que a estratégia atual apoia-se na diversificação de fontes de financiamento e em parcerias com o setor privado. A administração Tarcísio de Freitas sustenta que viabilizou mais de R$ 25 bilhões em projetos de infraestrutura e resiliência urbana desde 2023.

Segundo a gestão estadual, as obras estruturantes vêm sendo custeadas por mecanismos como o Fundo Estadual de Recursos Hídricos (Fehidro), financiamentos do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), linhas de crédito do Desenvolve SP e grandes concessões. Entre os projetos citados estão a Parceria Público-Privada (PPP) de R$ 9,5 bilhões para desassoreamento dos rios Tietê e Pinheiros, além dos compromissos de investimento atrelados à privatização da Sabesp.

Enquanto as obras de longo prazo não neutralizam a força das chuvas, o governo mobilizou helicópteros, embarcações e milhares de suprimentos de ajuda humanitária para socorrer as populações isoladas no interior e no litoral paulista.