Uma inovação promissora desenvolvida pela ciência brasileira promete transformar os protocolos de higienização e biossegurança em ambientes de assistência médica intensiva. Um grupo multidisciplinar de pesquisadores elaborou uma formulação antisséptica inédita capaz de combater com alta eficácia o Candida parapsilosis, fungo amplamente conhecido por sua elevada tolerância aos tratamentos convencionais e por causar graves infecções hospitalares.

Sinergia entre química e compostos naturais

O estudo, cujos resultados foram publicados no periódico científico internacional Pathogens, avaliou os efeitos de uma mistura que associa a clorexidina alcoólica a 0,5% a substâncias orgânicas vegetais, como o eugenol e o mentol. A combinação demonstrou capacidade de inibir o crescimento fúngico e reduzir drasticamente a capacidade de resistência do agente infectante.

A ameaça representada pelo Candida parapsilosis reside em sua facilidade de formar biofilmes — camadas protetoras que se aderem a plásticos, equipamentos e superfícies inanimadas, além da própria pele humana. Embora integre habitualmente a microbiota de indivíduos saudáveis de forma inofensiva, o patógeno torna-se extremamente perigoso quando atinge a corrente sanguínea por meio de incisões cirúrgicas, feridas abertas ou dispositivos invasivos, como cateteres intravenosos.

Proteção dupla: ação fungicida e cuidado dermatológico

Além de ampliar o poder de neutralização do fungo, a pesquisa coordenada pela professora Regina Helena Pires, da Universidade de Franca (Unifran), trouxe uma solução para um dilema recorrente das equipes médicas: o ressecamento cutâneo severo decorrente da higienização constante das mãos.

Ao incorporar fitoquímicos extraídos de óleos essenciais na fórmula, o produto atua na hidratação da epiderme dos profissionais de saúde, reduzindo lesões e fissuras na pele que poderiam servir de porta de entrada para novos germes. Os testes in vitro utilizaram cepas coletadas das mãos de 60 trabalhadores que atuavam em Unidades de Terapia Intensiva (UTIs) pediátricas e oncológicas.

Parcerias acadêmicas e fases avançadas do projeto

O projeto conta com o financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e envolve a colaboração de especialistas da Universidade Federal de Uberlândia (UFU), do Instituto de Medicina Tropical da Universidade de São Paulo (IMT-FM-USP) e da Universidade do Minho, localizada em Portugal.

Iniciada em 2023, a linha de pesquisa encontra-se atualmente em fase de validação biológica e análise de toxicidade in vivo, utilizando o organismo-modelo Caenorhabditis elegans e amostras laboratoriais de tecido cutâneo suíno, cuja estrutura se assemelha à pele humana. Etapas subsequentes incluem o envio de amostras para a Europa, onde serão empregadas técnicas avançadas de microscopia eletrônica e imunofluorescência para avaliar os danos estruturais causados às células do fungo após o uso da substância.