Em uma clara cartada diplomática destinada a consolidar o papel do Brasil no xadrez geopolítico global, o assessor especial da Presidência da República, Celso Amorim, esteve reunido nesta quarta-feira em Pequim com o ministro das Relações Exteriores chinês, Wang Yi. Durante o encontro, Amorim fez a entrega formal de uma correspondência assinada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva e destinada ao líder da China, Xi Jinping.

No documento, o chefe do Executivo brasileiro reiterou a prioridade em aprofundar parcerias estruturantes com a segunda maior economia do planeta. Entre os eixos fundamentais destacados pela diplomacia de Brasília figuram o avanço conjunto em inteligência artificial e, de forma central, o desenvolvimento de cadeias produtivas vinculadas a minerais críticos e terras raras.

Parceria em terras raras e a corrida tecnológica

Ainda que o Brasil não possua acordos formais celebrados para a industrialização conjunta desses insumos com o governo chinês, a potência asiática é vista pelo Palácio do Planalto como um ator indispensável. Atualmente, a China controla mais de 90% do processamento mundial de terras raras — elementos químicos indispensáveis para a fabricação de componentes eletrônicos, turbinas eólicas, motores elétricos e tecnologias de defesa.

A escala em Pequim foi o ápice de um periplo internacional promovido por Amorim entre os dias 11 e 15 de setembro, que abrangeu passagens estratégicas por Paris e Nova Délhi. O Planalto enxerga a França e a Índia como parceiras e potenciais concorrentes na corrida pelo suprimento de minerais estratégicos, mercado no qual o Brasil busca se posicionar não apenas como mero exportador de matéria-prima, mas como polo industrializador.

Impactos na corrida eleitoral brasileira

O movimento diplomático ocorre em um momento decisivo no cenário doméstico, a escassos 17 dias do primeiro turno das eleições presidenciais. As recentes pesquisas de intenção de voto desenham um cenário de disputa acirrada entre Lula e o senador Flávio Bolsonaro em um eventual segundo turno.

Ao sinalizar uma forte aliança industrial com o regime de Pequim para o setor mineral, a gestão atual estabelece um forte contraste com o programa de política externa da oposição. O pré-candidato do PL tem sinalizado publicamente uma preferência clara por Washington como parceiro prioritário para a exploração das jazidas nacionais.

Tensão diplomática com a Casa Branca

A reaproximação ostensiva com a China ocorre concomitantemente ao agravamento do atrito bilateral entre Brasília e Washington. A relação entre o governo brasileiro e a Casa Branca sofreu solavancos recentes decorrentes da imposição de barreiras tarifárias norte-americanas sobre produtos nacionais, além de declarações duras de Lula denunciando supostas ingerências de Washington no processo eleitoral brasileiro.

O presidente brasileiro já indicou que pretende levar esse descontentamento diretamente ao presidente norte-americano, Donald Trump, durante a 81ª Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), em Nova York. O posicionamento brasileiro na China reafirma a disposição do país em manter uma diplomacia multipolar pragmática, priorizando o desenvolvimento tecnológico nacional acima do alinhamento automático a blocos geopolíticos.